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O diabo em figura de gente

Outro dia fui testemunha dum estranho julgamento. Uma senhora sentiu-se ofendida porque um cidadão a terá injuriado no facebook. Ela é, se bem compreendi, gerente duma empresa que tem sido, em seu entender, injustamente acusada de poluir uma ribeira. Um ministro chamou-lhe qualquer coisa como infratores militantes. Os habitantes da povoação onde está sediada queixam-se (ingratos que não percebem os evidentes benefícios que a mesma lhes traz!) dos cheiros, alegando que não podem ter as janelas das casas abertas e que o valor das habitações se tem desvalorizado. As entidades com responsabilidades na fiscalização, como a GNR, apontam, a empresa, como a principal causadora dessa poluição.

A senhora em causa, enquanto gerente ou representante da mesma, não parece sentir-se ofendida por ser acusada de tantas e variadas formas desta ação criminosa que, à vista de toda gente, conspurca permanentemente um curso de água. Não demonstra, que se veja, qualquer remorso pela evidente degradação da qualidade de vida dos seus vizinhos, sendo evidente que esse cheiro e essa poluição das águas em nada contribui, pelo contrário, para a saúde dos mesmos. Não manifesta, que se oiça, qualquer incómodo por essa empresa ser considerada criminosa. Não! O que incomodou essa senhora, o que lhe terá tirado o sono e causado uma depressão, o que a levou a apresentar queixa em tribunal, não foi nada disso! Nem a afirmação do ministro, nem as queixas dos habitante da aldeia onde vive, nem a poluição de que é acusada, nem o facto de muitos a considerarem criminosa. Não! O que a perturbou, por grande fervor religioso, porque entende, segundo a sua advogada de defesa, ser sinónimo da própria personificação do mal, foi ser chamada (que injustiça!), o diabo em figura de gente.

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