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País político – 1925

Um ano político que conhece cinco governos, todos filhos, legítimos ou divorciados, do PRP, dois Presidentes da República e eleições legislativas e municipais, tem de ser considerado, passa a primeira república, algo muito próximo duma morte anunciada. Ninguém, indivíduo ou país, está preparado para o que se pressente e como inevitável, se vai impondo.

Verifique-se: Governos: José Domingues dos Santos (ex-PRP, Esquerda Democrática) 22/11/1924 – 15/2/1925;
Vitorino Guimarães (PRP moderado e de esquerda), 15/2/ /1925 – 1/7/1925; António Ma- ria da Silva (PRP moderados
do centro) 1/7/1925 – 1/8/1925; Domingos Leite Pereira (PRP-direita, (1/8/1925 – 17/12/1925);
António Maria da Silva, (PRP-centro e direita), 17/1271925 – 30/5/1926. Presidência da República: Manuel Teixeira Gomes – 5/10 1923 – 5/10/1923 – Apresenta um pedido de demissão ao Congresso em Abril, que reconsidera e retira; segundo pedido definitivo, a 10 de Dezembro, alegando motivos de saúde. Bernardino Machado – 5/10/ /1925 – 31/5/192 Eleições legislativas – 9/11/ /1925 – Vitória do PRP. Golpes militares, coordenados por monárquicos e republicanos conservadores: 5/3/1925 – Tentativa de tomada do Quartel-General. Derrotada. 18/4/1925 – General Sinel de Cordes, coronel Raul Esteves, comandante Filomeno da Câmara, major Jaime Baptista –
a partir da Rotunda. Derrotados e presos. 19/7/1925 – Oficiais presos em S. Julião da Barra, evadem-se. Nova revolta, da marinha. O almirante Mendes Cabeçadas toma o cruzador S. Miguel. O governo consegue dominar a sedição. Julgamento dos presos militares. Absolvidos. Os generais tomam posição contra o poder político. De Carmona, promotor público, no tribuna militar, presidido pelo velho general Ilharco, fica, premonitória, a frase: «A Pátria doente manda acusar e julgar neste tribunal os seus filhos mais queridos».

Concelho de Torres Novas – 1925
Uma Câmara eleita em 1923, maioritariamente nacionalisto-católica, com minoria democrática, cuja comissão administrativa era presidida pelo grande agrário Dr. João Martins de Azevedo. Na vila, onde predominava o pequeno comércio, a pequena indústria artesanal, algum sector industrial, lanifícios e metalúrgico, o sector público administrativo, municipal e docente, o domínio era do PRP, que se estendia às Lapas e Ribeira. Nas zonas rurais, predominava o catolicismo e o anti-republicanismo, disseminado pelos proprietários agrícolas (Fátima exercia, principalmente a partir de 1921, uma influência enorme, com a participação activa do clero concelhio, da União Católica, da Associação Nun’Alvares, a cargo da juventude católica torrejana, com a orientação periódica do único semanário, de raiz católica, O Almonda. Por sua vez, no sector republicano, surgira a divisão do PRP. Os bonzos de António Maria da Silva eram presididos pelo major Moreira, um grande proprietário, os canhotos, conhecidos localmente pelos Pintitas, capitaneados pelo Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida, que abandonaram o Centro Republicano 5 de Outubro, e, como a nível da capital, transformaram em adversário o PRP, silenciando ou apoiando as acções anti-governamentais. Também, a nível da administração concelhia, que, com a posse do novo administrador Gabriel Medina Camacho (22/1271924), irá promover a limpeza dos regedores por outros mais a contento dos
bonzos locais, se aguentará até inícios de 1926, cabendo-lhe a defesa da administração republicana e a organização das eleições. O centro republicano, dominado pelos moderados e a direita, é dirigido por uma comissão municipal constituída pelos major Moreira, capitão Vieira, Augusto Ribeiro, Alfredo Cortesão e Manel Vieira Borga (O Almonda n.º 285, 3/1). Saíram, do PRP, publicando um comunicado em defesa do Dr. António Pinto (Santos, António Mário Lopes dos, Torres Novas na 1.ª República, págs. 304/5), 30 militantes republicanos, na sua maioria, funcionários públicos, comerciantes, industriais, dos mais conhecidos e activos (lista publicada no nosso último artigo). Falta-nos um último sector, o trabalhador, representado por três sindicatos, o da Associação de Classe dos Caixeiros e os Sindicatos Único Metalúrgico e o da Indústria e da Construção Civil. Deste último conhecemos os textos publicados em 1926 em o jornal anarquista O Resgate, de Faustino Bretes. E
A Associação Comercial, criada em 1925, da qual também não se inventariou ainda o arquivo. As fontes locais que nos irão tentar compreender como o local reagiu ao nacional e vice-versa nesse crítico ano de 1925 são O Almonda, as Actas Camarárias, a Correspondência, desta e da Administração, existentes no Aquivo Municipal. Infelizmente, da correspondência privada das principais figuras do período, como das coletividades, o Arquivo Municipal pouco rastreou, tornando-se dada vez mais difícil a recuperação de arquivos privados. A história por nós escrita fica logicamente incompleta. Mas, como se verá, apesar da escassez de fontes, o ano foi clarificador nas posições dos diversos grupos político e sociais, como se concluirá dos resultados, em Novembro, das eleições legislativas e autárquicas.

antoniomario45@gmail.com

Escrito segundo o anterior acordo ortográfico

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