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Um momento de paz

O sol é uma brasa incandescente perto de mergulhar no horizonte. Poucas nuvens sem a promessa de chuvas. A serra vai esbatendo os seus tons acinzentados. A silhueta do castelo testemunha em pedra de muitas gerações. Uma curva no rio.

As andorinhas das rochas no seu incessante voo perseguindo insetos. Um casal de melros disputa, violentamente escassos metros de relva. Um rabirruivo preto canta desalmadamente: esta casa é minha, só minha, minha, muito minha… Dois corvos marinhos de faces brancas passam por cima dos telhados: porventura algum pescador lhes rogou uma praga por serem melhores pescadores. Um macho de rola turca esvoaça de asas abertas e vai pousar num fio elétrico sempre a arrulhar perseguindo uma fêmea: só tu, só tu. Ela responde: és tu, és tu… Amanhã esquecerão estas juras, mas agora são sinceros! Duas ou três garças cinzentas, no seu voo pausado, deixam-se cair sobre o rio, agilmente, por entre a ramagem dos salgueiros. Um pisco de papo laranja solta lança a derradeira canção. Começam a aparecer as garças boieiras. Chegam em pequenos bandos de dez ou vinte, por vezes aos pares, raramente sozinhas. Dão uma curva no ar e deixam-se cair com as asas imóveis, rodopiam, hesitam por um instante como que a escolher o melhor local e mergulham em direção ao rio.

Como seria bom conseguir dominar assim o vento: elevar-me no céu, pousar como elas, levemente.

São muitas: mais de trezentas escondidas no canavial feito dormitório. Oxalá ninguém se lembre de as ir perturbar!

O horizonte incendeia-se, as nuvens são labaredas. Os morcegos, ultrassónicos, cruzam já o entardecer. Uma coruja do mato ulula. Não passou mais de meia hora. Entre a natureza sábia e os desmandos loucos da humanidade, antes que recomece a refrega, um breve momento de paz.????

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