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Música em Festival – O Telemóvel I

Sou fã dos festivais da canção da RTP desde o seu início, altura em que todo o país se mobilizava, em que quase se parava para assistir e saber quem iria representar Portugal ano após ano. Mais tarde, as canções começaram a ser contestatárias, com poemas mais ou menos corajosos, num período em que imperava o Estado dito Novo e onde a Pide nada deixava passar, quer na escrita, quer na rádio e na TV, onde só haviam dois canais e tudo era bem controlado e mais preto do que branco.

E veio o ano da “Tourada” cantada por Fernando Tordo, com poema de José Carlos Ary dos Santos, que a certa altura dizia: “E diz o inteligente, que acabaram as canções”… e para espanto geral, a canção ganhou esse festival e foi um brilhozinho de liberdade que reluziu nos nossos olhos, tão aperreados de ideias e de sentimentos até essa altura.

A seguir veio a maior qualidade dos poemas e das músicas e lembro-me bem dum festival em que foi convidado Carlos do Carmo para interpretar todas as canções. E desse festival, ainda hoje estão vivas algumas obras primas da nossa música, como “Estrela da Tarde”, “No teu poema”, “Lisboa Menina e Moça”, só para exemplo. Depois veio a canção “E depois do Adeus” e ela foi a senha para a Revolução de Abril.

Passados alguns bons anos, os bons poetas e músicos, como que se alhearam dos festivais da RTP e o nível do festival baixou imenso, tendo mesmo durante alguns anos, a RTP não poder concorrer ao festival europeu. Depois de uma grande travessia no deserto em que já quase ninguém ligava patavina aos festivais, só se surgisse um quase milagre, para despertar as pessoas, para nos unir em torno de uma canção e….. apareceu um salvador, o Salvador Sobral com uma canção composta por sua irmã que ganhou o festival nacional e que foi a grande vencedora do Festival da Eurovisão, com uma pontuação quase unânime da esmagadora maioria de países votantes. Foi um recorde de pontuação e o delírio nacional. A canção era de facto muito bonita, muito bem interpretada e impressionou todo o mundo da eurovisão, pela sua qualidade e pela sua simplicidade.

Ganhámos num ano e no seguinte, no nosso Portugal, ou ficámos em último ou muito perto disso. Este ano, nova canção, um não sei quê de estranha e de bizarra, que fala de telemóveis e de ligações ao céu e a meu ver ela bem vai precisar de uma ajuda celeste, para que se transforme numa canção vencedora. Mas, não quero manifestar a minha opinião desta vez, porque esta é uma canção de outra geração e nunca se sabe aquilo que o público desta vez vai votar.

Eu, em tempos, também não gostava nada do António Variações e o futuro veio a provar que estava enganado, pois a sua música afinal possuía uma força e uma vitalidade que nunca me tinha tocado. E hoje, gosto imenso das suas músicas e da sua forma vigorosa de cantar. Ao “telemóvel” e ao Conan, só desejo muito boa sorte e que a canção se torne um êxito europeu. Cá esperamos para ouvir.

 

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