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Um Militar Torrejano na Revolta Monárquica de Monsanto

Vencidos no 5 de Outubro de 1910, os realistas não perderam a esperança de ver singrar novamente a monarquia em Portugal. Por diversas vezes o país assistiu a focos de revolta e a complots por parte das facções ligadas à causa monárquica. (Em Torres Novas, a 20 de Outubro de 1913, os monárquicos faziam saltar a ponte dos Caniços. Como responsáveis pela conjura foram presos o administrador da Quinta da Cardiga, Luiz Ramos, e alguns oficiais da nossa Escola Prática de Cavalaria). Estas movimentações realistas eram o sinal, dado aos republicanos, da sua pretensão em derrubar o novo regime político. Fragilizado pelas constantes divisões na família republicana e pelas crises sociais e económicas do país.

Durante o período em que Portugal esteve envolvido na Grande Guerra as hostilidades entre republicanos e monárquicos entrariam numa fase de aparente quietude. A recomendação do rei D. Manuel II (1889-1931) aos seus seguidores, de que enquanto durasse o conflito bélico não toleraria quaisquer imprudentes rebeliões, surtira efeito. Também a chegada ao poder de Sidónio Pais (1872-1918) apaziguara, a breve trecho, muitos dos descontentes. A República demagógica dera lugar à República Nova, liderada pelo cognominado “presidente-rei”.

Este clima de paz podre manter-se-ia até ao final da Grande Guerra, a 11 de Novembro de 1918. A partir desta data, as fracturas tornaram-se mais evidentes e atingiram o seu ponto crucial após o assassinato de Sidónio Pais, no dia 14 de Dezembro desse ano.

O novo governo eleito do presidente monárquico Canto e Castro (1862-1934) não conseguiu debelar o conflito existente entre as facções republicanas e monárquicas. As juntas Militares, afectas aos realistas, exigiam ao representante do país o estabelecimento de um governo de força, da sua inteira confiança. Face à política dúbia e aos impasses criados pelo governo presidido por Tamagnini Barbosa (1883-1948), os monárquicos iniciaram vários focos de revolta em diversas zonas do país.

A que teria maior impacto deu-se em Santarém. Foram vários os dias que duraram a insurreição – de 12 de Janeiro a 18 do mesmo mês. (Segundo Gonçalo Pimenta de Castro, no seu livro “A Revolta de Monsanto” (1920) a rebelião, na cidade escalabitana, terminou em 16 de Janeiro). Nela estiveram envolvidos importantes figuras políticas e um considerável contingente militar. A rebelião de Santarém esteve na origem dos acontecimentos que instauraram um clima de guerra civil em Portugal: a revolta Monárquica do Norte e, no seu seguimento, a revolta de Monsanto.

Um dia após o fracasso da revolta de Santarém, a 19 de Janeiro de 1919, o herói realista, Paiva Couceiro (1861-1944), instaurava a Monarquia do Norte. Pouco tempo depois, na capital, sectores afectos à monarquia iniciavam a forçada ocupação de Monsanto. Os quartéis onde se tinham resguardado já não lhes ofereciam a devida segurança.

Alguns dos revoltosos sustentaram que as colunas monárquicas deveriam ocupar a Rotunda, e não, como aconteceu, a serra de Monsanto. Um dos rostos discordantes da má escolha, por parte dos realistas, foi o ex-capitão Júlio da Costa Pinto (1883-1969).

Natural de Torres Novas, freguesia do Salvador, o torrejano ilustre destacou-se como um dos grandes heróis nas guerras de África. Fiel ao regime monárquico, Júlio da Costa Pinto combatera os republicanos no dealbar da República. Renegaria o novo regime, nascido a 5 de Outubro de 1910. O gesto de quebrar a sua espada, após a derrota monárquica, transmite-nos a imagem de um homem fiel aos seus princípios. Com aquela espada defendeu o rei. Instaurada a República já não lhe servia para nada. Em consequência da derrota, Júlio da Costa Pinto demitiu-se do lugar de oficial no corpo militar português.

O torrejano ilustre estaria envolvido em diversas revoltas e conspirações com o objectivo de restaurar a monarquia. Fizera-se jornalista para combater no jornal, “O Liberal”, os republicanos. À causa realista trouxera gente de todas as condições sociais.

Novamente o apelo à causa não deixou indiferente Júlio da Costa Pinto. Ali estava, no fim da tarde de 22 de Janeiro, a caminho de Monsanto, envergando a farda,“ o militar habituado à obediência, o oficial costumado à disciplina, o chefe que se fazia ouvir através dos rumores de todos os tiros, seria o primeiro no fogo e o último na retirada, a alma vibrante que só pensava em vencer ou em morrer bem. À sua volta aglomeravam-se as dedicações: ele nomeado dirigente, já não ria, falava como um condutor de homens num momento decisivo.

«Não obrigava ninguém a segui-lo. Mas quem viesse, quem o acompanhasse devia-lhe obediência e se acaso a esta faltassem tinha ali uma pistola para lhe fazer saltar os miolos» ” (MARTINS, Rocha; “ A Monarquia do Norte”, Oficinas Gráficas do “A B C”, Lisboa, 1922, pág. 169).

(Continua)

Vitor Antunes

Texto escrito com a antiga grafica

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