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Casa das Memórias Rua de Valverde, n.º 6

Pese embora com um atraso de mais de dez anos, parece que é agora que a minha casa de afectos, o lugar onde cresci e onde vivi grande parte da minha vida, um local onde a minha família conviveu, com as recordações de horas e dias felizes e infelizes, uma casa de gente pobre e trabalhadora sempre de portas abertas a quem quisesse entrar, parece que é agora que o meu ninho vai oficialmente abaixo e deixará de ser um perigo eminente de desmoronamento para as Ruas de Valverde, dos Ferreiros e para o Largo da Rua Nova.

Casa das memórias da minha família, dos meus pais Carminda e José, da minha irmã Glorita, da minha avó velhinha com o mesmo nome e dos meus tios Joaquim e João Duarte, que aqui viveram connosco até casarem e darem rumo às suas vidas.

Saudades terão também meus filhos e sobrinhas, os primos João e Jorge, que ali foram criados e que tiveram a avó Glória como primeira professora com a cartilha João de Deus. O segundo andar daquela casa grande, foi sempre um ponto de encontro e uma casa aberta a tios e a primos, vindo de alguns bairros da cidade, como S.Domingos, S. Pedro , Santo António, Quebradas, Vila Moreira e de Sintra donde vinha o meu tio Manuel que para ali fora trabalhar. Era nas férias de verão que a casa estava mais cheia, com a chegada dos meus tios Manuel e Florinda , com os seus três filhos, Beatriz, Joaquim e João (gé- meos) e isto sucedeu durante uns bons anos. E a alegria de uma grande família era uma feliz realidade. E quando a família se juntava a cozinha era sempre farta e os pitéus cozinhados pela minha avó Glória e pela minha mãe Carminda eram de comer e chorar por mais. E será sempre bom recordar os seus feijões com couve, o requentado para onde lançávamos algumas azeitonas e que comíamos com petinga frita ou com lascas de bacalhau assado. E a sopa de arroz e feijoca, as pataniscas de bacalhau e os célebres filetes de corvina com um arroz de tomate como só ali se fazia ? E o arroz e grão, e os “velhoses” que a minha avó fazia pelos natais, ajudada pela minha tia Fernanda? Ainda agora sinto o seu belo sabor a bailar-me na boca… Muita desta gente da família morreu antes da velha casa vir abaixo. São já menos os que agora assistem ao seu fim físico e guardam nas memórias muitos dias e anos ali vividos. E seremos nós os defensores dessas muralhas em ruínas das quais não vai ficar pedra sobre pedra. Agora, já sem a presença do guardião vermelho da Rua de Valverde, o seu marco do correio, restam as boas lembranças da azáfama destas ruas, do assobio com que meu pai chamava a minha mãe para lhe dar um recado, dos putos a apreciarem o velho Basílio na pintura dos seus carros e dos ferreiros na rua com o seu nome, trabalhando o ferro em fornalhas de fogo bem vivo e das serenatas que os sapateiros e o vinho das tascas do bairro entoavam às suas amadas. Agora só silêncios marcarão o que foi a vida dessas ruas e desse Largo, que apenas deixa saudades de outros tempos, de outras realidades e um novo sol brilhará nesse novo espaço projectado para o futuro e que desejamos respeitador das gentes, dos suores, dos ofícios, dos odores e dos sentimentos que ali imperaram durante largas dezenas de anos.

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