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“M’espanto às vezes, outras m’avergonho”

Voltámos há semanas a Pointe-à-Pitre, na Guadalupe. Como todas as Antilhas, também esta ilha francesa está inserida na história da escravatura e compreende-se que os sofrimentos padecidos por milhões de seres humanos não possam nem devam ser esquecidos.

Sabíamos da existência do Mémorial ACTE, inaugurado em 2015. Não estávamos porém preparados para a emoção. Praticamente em cada sala, nalgumas por repetidas vezes, leem-se inúmeras referências ao papel primordial de portugueses neste tráfico. É sempre um grande choque e nunca entendemos a falta de empenho dos historiadores lusos em investigarem as ligações entre estes negreiros e a origem de grandes fortunas.

Alguns portugueses reconhecem a responsabilidade que o país teve num comércio que escravizou cerca de 12,5 milhões de africanos. Não podemos esquecer que em 1444, chegaram a Lagos os primeiros 235. Tinham sido capturados após o Infante D. Henrique ter estabelecido um entreposto comercial na atual Mauritânia.

Os pingues lucros deste negócio estimularam mais razias em África e Lagos tornou-se o centro europeu da escravatura. Posteriormente, o rei até veio a estabelecer uma série de regulamentos para estas vendas e para o pagamento de taxas e outros impostos.

Fomos informados que quem passar pela bonita cidade do Algarve pode agora visitar uma exposição museológica no local onde o mercado de escravos começou. Tenta narrar um pouco da história da escravatura em Portugal e o crescimento económico a ela associado.

Segundo os visitantes, o conteúdo é paupérrimo. É o que se lê nos comentários escritos por turistas estrangeiros. Sentem-se defraudados. Não tem comparação com a majestosidade do memorial de Pointe-à-Pitre. Se quem visita o museu algarvio não aprende nada de novo, já assim não será com o caribenho. Com efeito, ninguém deve ir à Guadalupe sem o ver. Ajuda a compreender esse período sombrio da história universal. Uma autêntica fonte de inspiração para milhões de pessoas.

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