A República em Crise

A história permite-nos a compreensão de como, numa determinada época, os elementos de crise não são perceptíveis para a maioria de quem os vive. 1924 é um ano de exemplo. Tudo apontava para uma crise e uma mudança.

A crise partidária, que leva à desagregação do partido do poder na República, o Democrático, como primeiro partido republicano radical, depois a cisão da Esquerda Democrática, aos conflitos internos dos outros partidos, ao reforço do integralismo monárquico e da recuperação da Acção Católica Portuguesa.

A crise económica, que conduz ao choque entre o poder governamental e as associações comerciais (como a de Lisboa), que vão interligar-se com as do sector industrial e, já no final desse ano, da agricultura. O eterno défice português, sempre dependente das importações, quer no campo alimentar, quer nas matérias primas para a indústria, que dá origem, no pós-guerra, a um grupo económico que enriquece e domina o import-export, a finança, a banca, a própria imprensa (Diário de Notícias, O Século), e serão a base da contrarre
volução que conduzirá ao 28 de Maio de 1926.

Mas o que se passa fundamentalmente na capital e zonas de influência, Porto, influencia pouco o interior, onde Torres Novas se situa. Aqui chegam as notícias pela imprensa e a influência do sector operário revela-se especialmente no dos caminhos de ferro, no Entroncamento. O urbano, das fábricas de fiação, metalúrgicas, pouco se manifestam. Apenas os caixeiros, na luta pelas oito horas de trabalho, mesmo assim cedendo mais uma hora sob pressão do patronato (Idem, nº 251, 10/5). O sector rural, sob o reforço do poder da igreja católica, consegue pôr todo o concelho a difusão pública da acção religiosa, em dois vectores: a culto externo, pelas procissões; o aumento das peregrinações para o santuário de Fátima, que se multiplicam, ante a reacção do governo, que as tenta proibir (Idem, nº 274, 18/10). O Almonda é o porta voz do dinamismo católico do grupo concelhio, onde pontificam o arcebispo de Évora, os irmãos Drs. Carlos e Augusto Mendes e o Dr. Alberto Dinis da Fonseca, futuro (em 1925) deputado católico, com a apoio da Juventude Católica Torrejana, onde se destacam, neste ano de 1924, os membros eleitos dos corpos directivos (As. Geral: Pres. António Carlos Zuzarte Reis; 1º sec., Henrique Carvalho Pais; 2º sec., Júlio Vassalo. Direcção. Pres. Ivo dos Santos Cabaço; Vice-Pres., Alfredo Rodrigues Cardoso; 1º sec., Alberto Rodrigues Cordoeiro; 2º sec. Fernando Antunes Ferreira; Tes., Manuel Teixeira Alvarenga; vogais, Francisco da Silva Correia, José Augusto Gonçalves e José Augusto Lopes (Idem. nº 278, 15/11/1924).

No sector agrícola, a crise do preço da aguardente de figo, prejudicada pelo protecionismo estatal à viticultura do Norte, empurra também o proprietário agrícola para a oposição à República, quando vê não atendidas as suas reclamações.
Como elementos aglutinadores da crise, a carestia de vida, o aumento dos preços, a contenção dos salários, o desemprego, o analfabetismo, o alcoolismo, a emigração, o drama epidemiológico da tuberculose nas famílias trabalhadoras, a quase inexistente rede pública de cuidados de saúde, a que se substituíam, deficitárias, a Misericórdia com o seu Hospital e o Montepio de Nª Sª da Nazaré.

antoniomario45@gmail com o autor segue o antigo acordo ortográfico.

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