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Só há uma vida…

Sempre que há um nascimento de alguém a grande certeza que existe é que irá morrer, cedo ou tarde, mas que vai morrer todos o sabemos. Mas primeiro a vida, o crescimento, a adolescência, as escolas e universidades, o namoro, o casamento, a tropa, o trabalho e depois o nascimento de filhos, o início de uma nova geração. De geração em geração a vida vai correndo, nem mais devagar nem mais depressa, sempre ao mesmo tempo, e a idade vai passando, por todos nós, implacável, inexorável, quase sempre sem darmos por isso.

Vem isto a propósito de nestes últimos tempos ter acontecido a morte de muitos amigos nossos, mais novos, da mesma idade e mais velhos do que nós. Foi o Albano Freitas, o Quim Varela, o José Morte, o Jorge Morte, o Luis Conceição, o Carlos Canelas, o David Ribeiro, o Masofi, o António Sapateiro, o Joaquim Pedro, o Carlos Trincão Marques, o Bento Leão, o Canais Rocha e outros amigos nossos, de longa data e ligados às artes, aos pombos correios, à pintura e à escultura, à música e ao canto coral, às colectividades, ao futebol e a outras actividades, que nos deixaram há relativamente pouco tempo.

Não se estranhe se me refiro só a homens, mas os meus amigos das artes que referi, foram meus colegas nas suas actividades, uns mais que outros, mas todos deixaram em mim um sentimento de perda e de tristeza.

A morte mais recente, se bem que esperada, pela fragilidade da sua saúde, foi a do João Espanhol, amigo desde os meus sete ou oito anos, não só por causa da música, mas sobretudo por ser um hábito da pequenada, juntar-se na sua loja antiga, na cave do velho Tetaro Virgínia, para ver o João a trabalhar, afiando facas e tesouras, consertando os chapéus de chuva avariados, fazendo chaves diversas, recuperando fechaduras, abrindo cofres e tendo mesmo assim sempre uns minutos para conviver com a malta, a quem dava sempre uma palavra, a quem punha alguns problemas de matemática para resolver, a quem convidou para uma prova, para fundar uma orquestra de assobios. Mas aqui, como pôs toda a malta a rir, ninguém conseguiu assobiar a rosa arredonda a saia, e o projecto faliu. Ela era assim, amigo e brincalhão.

O nosso amigo João, quase a chegar aos 90 anos partiu, com muita pena nossa, mas deixou-nos a todos e está já junto dos outros amigos que atrás refiro e que já cá não estão.

Afinal de contas, todos nascemos e apenas estamos a aguardar a nossa vez para o fim, que queremos sempre adiar.

Honremos pois a passagem pela terra de muitas almas que tudo fizeram em prol dos outros e pensemos sempre que a morte nunca escolhe e assim sendo, que vivamos a vida o melhor possível e com alegria, pois só há uma vida na vida de cada um.

 

Jorge Pinheiro

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