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Homenagem ao General Torrejano Dantas Baracho

A actividade política e os políticos nem sempre atingiram a enorme desconfiança e insatisfação que, hoje, despertam na população portuguesa. Houve períodos da nossa História em que a nobre arte de governar a Pólis suscitava o reconhecimento moral por parte dos cidadãos. Viam nos detentores do poder o paradigma do homem íntegro e justo. Dedicado ao bem comum.

Este modelo de estar na política, afigura-se, nos nossos dias, em completo desuso. O que hoje assistimos é ao triunfo de uma vertente iníqua de fazer política e de governar a Nação. A que proporcionou o sequestro do bem público por parte dos políticos e das insaciáveis clientelas que gravitam em torno do poder. Ávidas de mando e sôfregas de interesses.

Falta a este pobre país, adiado, uma maior consciencialização dos cidadãos para fiscalizar os seus representantes políticos. E a serem mais exigentes nas suas escolhas. Para se não dar o caso de caucionarem qualquer candidato político (muitos deles de carácter obscuro) para o exercício de funções governativas. Só porque este possui o cartão do partido.

Esta atitude de constante vigilância, por parte dos cidadãos eleitores, poderá ser uma das vias para que a política nacional recupere a credibilidade que um dia ostentou nas palavras e nos actos de alguns dos grandes nomes da política da nossa História. A quem eram reconhecidas as lídimas qualidades de elevação moral e sagaz inteligência. Como foi o caso do torrejano Sebastião de Sousa Dantas Baracho (1844-1921).

Nascido em Torres Novas, a 10 de Agosto de 1844, a vida do General Dantas Baracho constitui-se como um exemplo de enorme integridade e de dedicação ao bem comum. As palavras inscritas na sua antiga casa, situada na rua Dr. F. L. Gouveia Pimenta, atestam o paradigma de homem “dum só rosto e duma só fé”. Imune aos jogos de poder e interesses, que muito contribuíram para a degradação da política no seu tempo.

Ao longo da sua vida, Dantas Baracho sempre pautou as suas acções em prol da justiça, tentando minorar as agruras dos desvalidos da sociedade. A parcela de Bem que em vida o torrejano ilustre espalhou tornaram-no benquisto entre o povo e em diversas instituições de solidariedade social do país. Uma delas, a Sociedade de Instrução e Beneficência, “A Voz do Operário” inscreveu Dantas Baracho entre as distintas individualidades beneméritas que surgem nas duas lápidas descerradas, a 19 de Abril de 1936, na sua sede. Numa homenagem que pretendeu destacar muitos daqueles que emprestaram o seu talento e campanha contra o analfabetismo e se empenharam na defesa das reivindicações das classes humildes da sociedade.

A propósito da acção do torrejano ilustre, vale a pena transcrever, no presente artigo, as palavras pronunciadas, no “Salão de Festas”, pelo orador, Raul Esteves dos Santos:

“ Era uma figura curiosa o General Dantas Baracho, forte, espadaúdo, laço de artista solto ao vento, a sua palavra recheada de exemplos e citações, assim como as suas atitudes, caracterizavam-se por um desassombro pouco vulgar.

Durante largos anos, foi a sua voz a única que se ouvia na Câmara dos Pares a protestar clamorosamente contra todas as violências e vexames que do alto do poder caíam sobre o povo.

Quando um dia, na nossa sede, em 30 de Dezembro lhe foi prestada uma extraordinária homenagem de agradecimento pela útil intervenção que, em defesa de uma classe tão sacrificada, fizera na tribuna da Câmara Alta, Dantas Baracho respondeu que não tinham que lhe agradecer a sua intervenção e acrescentou:

«Deriva ela do norteamento que sempre tive, pugnando a favor do oprimido contra o opressor, em proveito do deserdado contra o favorecido.

Proletário, consoante o seu genuíno significado é o que vive do trabalho, e ninguém contestaria por certo, que me encontro nesses precisos termos, com orgulho o declaro.»

Estas palavras, na boca de um general, marcam a sua altiva independência e a massa associativa que boquiaberta o ouviu na antiga sede do Largo do Outeirinho, na Amendoeira, premiou-lhe a confidência com uma entusiástica salva de palmas.

Era um liberal à moda antiga, que depois de durante trinta anos ter acompanhado o Partido Regenerador, o abandonou em 1901 para poder criticar livremente os desmandos dos governantes.

A sua grande amizade pelos republicanos, a assistência quase diária que dava ao jornal “O Mundo”, a altiva coragem com que na sua câmara tratou dos assuntos referentes à perseguição que então se fazia à imprensa e às liberdades públicas, fizeram do general Dantas Baracho um homem querido do povo.

Liberto de preconceitos, possuindo uma grande ilustração, a sua actuação ficou notavelmente demonstrada nos volumes que publicou, a que deu o título sugestivo «Entre duas Reacções» e que constituem um magnífico repositório dos acontecimentos políticos em que interveio de 1902 a 1918.

O seu último acto de desassombro foi a renúncia nas Constituintes ao lugar de deputado.

A amizade pela «Voz do Operário» e o desprezo que tinha pelas convenções hipócritas do mundo, demonstrou-a até nas suas últimas vontades, determinando que o seu cadáver fosse vestido apenas com uma camisa, dispensando as honras militares e não permitindo que se fizessem convites, mas desejou que a humilde carreta do «Voz do Operário» e as mãos calejadas dos operários o conduzissem, em 28 de [Dezembro] de 1921, à última morada” (SANTOS, Raul Esteves; “Figuras Gradas de A Voz do Operário”, Lisboa, 1936, págs. 20-21).

O general Dantas Baracho foi um dos raros políticos portugueses que saiu da cena política com igual ou menor património material daquele que possuía ao entrar na vida partidária.

Nestes tempos sombrios em que a maior parte dos políticos “ trata da sua vidinha e a dos seus amigos à custa do erário público”, a figura do torrejano ilustre ergue-se como paradigma de uma outra atitude de encarar o governo da Pólis: com inteireza moral e sábia inteligência.

Texto escrito com a antiga ortografia

 

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