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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Reprodução

Por: Drª Telma Gomes

A propósito do recentemente comemorado “Dia dos Namorados”, lembrei-me de uma frase que há pouco tempo encontrei no Facebook, essa incrível maravilha de encontros e desencontros. Dizia qualquer coisa do género: “procuro namorado para a minha cadela”. Quem me conhece, consegue imaginar o meu revirar de olhos de descrédito e impaciência. Procurando nos grupos desta rede social, não é difícil encontrar réplicas destas palavras, por vezes com variações tipo: “O Joca quer uma amiguinha para namorar” que se sucedem em algo assim: “que namoro bonito”. Sim, continuamos a falar de cães.

A si, que gosta muito dos seus cães de raça, e que gostaria de ter filhos deles, digo isto: é você quem quer cruzar o seu/ /sua cão/cadela, não o seu animal que procura namorado. Em primeiro lugar, paremos com as antropomorfizações que, na minha opinião, são a principal arma contra o respeito pelos animais. Se um cão é um cão, então que o seja, e por aí diante. Não há cá lugar para namoros, nem meios namoros. Há lugar para hormonas. Isso remete-nos para a segunda questão: o seu animal não tem propriamente o desejo de experimentar a maternidade/paternidade, e ver os filhos evoluir na vida. Ao fim de quatro meses, se tanto, já nem se lembram que têm filhos, quanto mais desejar vê-los entrar na universidade e graduarem-se. Os seus animais têm hormonas. E quando as hormonas determinam a época de cio, querem reproduzir-se. Simples, só isto. Chegamos à terceira questão: quando se reproduzem, o que acontece? Ninhadas! Meia dúzia de cães/gatos para dar/ /vender! Há quem esfregue as mãos de contente a pensar na negociata, há quem abane a cabeça de desespero. O que fazer a tanto animal? Lembre-se: os cães e gatos são espécies domesticadas, não são silvestres/selvagens. Se o fossem, a natureza encarregar-se-ia de fazer cumprir o seu ciclo normal e manter a sustentabilidade e o equilíbrio. Inexoravelmente, nem todos sobreviveriam. Muito duro ler isto? Talvez, mas é a realidade. O que se passa, com estes animais domesticados, é que todos nós, como espécie humana que somos, somos responsáveis por eles. Se estes animais não são espécies selvagens, então porquê ouvirmos comentários como: “não é natural evitar a reprodução”. Ela deve ser evitada! Só assim controlamos a população, que no meio selvagem seria controlada pela natureza, de forma nua e crua. Entretanto, a quarta questão: por acaso, o caro leitor, que pensa comprar um cão a um criador ali da esquina, que juntou um par de namorados (caninos), e que até sai mais barato, lembrou-se de saber se os despistes para as principais doenças da raça estão feitos? Lembrou-se de ver se o criador é certificado pelo clube português de canicultura? Acredito que se a reprodução de cães de raça fosse apenas feita por criadores certificados, teríamos muito menos compras irresponsáveis, muito menos reproduções indesejadas. A si, que quer comprar um cão ao seu vizinho, que por acaso, até parece perceber de cães, e a si, que quer um namorado para a sua cadela, convido-o a visitar – com olhos de ver e um pingo de sensibilidade – um albergue para animais de rua: veja as dezenas, alguns locais com centenas, de animais que procuram uma família, cujo único crime foi terem nascido de quem não foi cuidado.

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