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A Filha Poetisa de Carlos Reis

Num artigo anterior fizemos referência aos filhos do pintor torrejano Carlos Reis (1863-1940), em que destacámos o seu amor às coisas belas do espírito. Desde a tenra idade dos seus filhos, Carlos Reis incutiu-lhes o amor à arte e à cultura. Os filhos, Maria Luísa Reis e João Reis, alcançaram uma enorme reputação no domínio da pintura. O rebento mais velho do casal, Elisa Maria Reis, desenvolveria o gosto pela música. Excelente pianista, muito contribui para abrilhantar os saraus da família e eventos culturais.

A outra filha do torrejano ilustre, Maria Leonor Reis (1900-1979), encontrou na poesia o ambiente propício para dar asas à sua alma sonhadora. Misto de sombria contemplação e de rara sensibilidade.

As primeiras tentativas poéticas de Maria Leonor Reis, na arte da musa Euterpe, datam da tenra idade de oitos anos. Com quinze compôs o seu primeiro soneto. As produções poéticas juvenis da filha de Carlos Reis seriam acolhidas pela imprensa com grande entusiasmo. Auguravam um futuro promissor a Maria Leonor Reis no mundo da poesia. A enorme qualidade literária dos seus versos abriu-lhe as portas das páginas dos jornais. Alguns dos seus poemas foram publicados na imprensa. Como foi o caso do poema dedicado à grande escritora D.ª Maria Amália Vaz de Carvalho (“Jornal Nacional”; Março de 1918).

Em Maio de 1918, a filha de Carlos Reis vê impresso o seu primeiro livro de poesia: “O Frade Estatuário”. A obra é constituída por um único poema que serve de título ao livro. Maria Leonor Reis dedicou-o à memória da sua mãe, D.ª Elisa Albertina da Silva Lobo. Falecida dois anos antes: em 1916.

A jovem poetisa recitaria o seu belo poema “ O Frade Estatuário”, na “Matiné de Arte”, efectua- da, na Quinta dos Lagares de El-Rei, a 21 de Junho de 1918. Promovida por Carlos Reis, a reunião contaria com a presença de diversos convidados do mundo das artes e de ilustres figuras da sociedade portuguesa. Na festa, Maria Leonor não foi o único elemento da família a brilhar. O próprio filho do torrejano ilustre, o pintor João Reis, teve a possibilidade de revelar uma outra faceta artística: a de exímio violinista (também lhe eram reconhecidos dotes para o piano). No dia seguinte, a 22 de Junho, o jornal “O Dia” destacaria nas suas páginas o importante acontecimento. Dando enorme ênfase à recitação efectuada pela filha do torrejano ilustre dos “seus magníficos versos do frade estatuário”. O primeiro livro de poesia de Maria Leonor Reis “ O Frade Estatuário” é precedido por uma carta em verso da ilustre
poetisa Dª Branca de Gonta Colaço (1880-1945). Esta mensagem seria recitada pela esposa de Jorge Colaço (1868-1942), aquando da abertura da referida “Matiné de Arte”. Nela, a poetisa Gonta Colaço, aconselha a jovem filha de Carlos Reis a nunca desistir da poesia; e a dar vida aos seus sonhos. Como o frade da sua belíssima jóia literária.

O poema “O Frade Estatuário” inicia com a descrição do convento onde um crente viera abrigar-se fugindo da humana hipocrisia. Ali, quisera “pôr termo ao seu tormento sob a vista paternal de Deus”. Um sofrimento cruel despedaçara a alma do agora frade. Todos os que amara haviam desaparecido. Restava-lhe apenas servir a Deus com humildade e como bom cristão entre os frades seus irmãos. Mas eis que numa noite calma “em que o luar iluminava a terra adormecida”, o frade é acometido pela “visão querida” do ente que o consolava nas horas amargas do dia. A Deus falou sobre a dor e o mal profundo que o consumiam. Era a imagem de um morto em vida. Como fora artista pensou em insuflar no barro a imagem do amor desaparecido. Um novo alento volta perpassar na alma do infeliz frade. “Ei-lo agora como dantes fora,/ Como dantes o barro modelando”. Das suas mágicas mãos nascem “de um para outro lado apartados,/ Cabelos longos, finos ondeados, /Perfeita cópia dos cabelos dela! (…) Uns olhos rasgou de luz tão pura no barro, escravo seu,/ Que ao vê-los tão iguais aos de «Maria»,/ Quedou-se na certeza que seria/ Milagre lá do Céu!…”. Pouco a pouco a informe matéria de barro dá lugar à “doce imagem, meiga, sonhadora,/ [da] mulher que ele sonhara!/ E nela lhe vincou tão funda mágoa,/Que mesmo sem os olhos rasos de água/ Diriam que chorara!!!” Por fim, cobre de linda veste a sua amada. Sentindo não sei o quê, o frade desata aos soluços. As lágrimas caem da sua face e a custo tenta sustê-las. A perfeita imagem que modelara fez-lhe recordar a outra que em vida amara. Em lamentos confessa-lhe a sua miserável vida na estreita cela. “E aonde padecera”, padecesse ela agora também. Numa atitude de clara resignação. Nisto supôs ouvir dos imaculados e doces lábios da estátua da amada a sua voz que veio ferir- -lhe o coração. Incrédulo, fitou-a como um louco e ajoelhou-se. A rezar-lhe ardentemente. A beleza do poema de Maria Leonor Reis vale não só pela forma mas também pelo seu conteúdo. Nas suas linhas é clara a alusão à sentida perda da sua mãe. No poema a filha de Carlos Reis conseguiu de forma natural criar nos seus versos ritmos harmoniosos. Numa cadência poética plena de dinamismo. Atingindo o clímax na parte final. No momento em que o pobre frade assiste espantado ao sopro da vida na imagem feita de barro da sua amada. Seria necessário decorrer quase quatro anos para que a filha do pintor Carlos Reis editasse o seu livro de sonetos “Interrogando…” (1923). O título encerra a aspiração da poetisa à beleza. Na presente obra Maria Leonor Reis dá asas à sua arreigada melancolia. Os seus poemas
– feitos de anseios e de sonhos – confessam as inquietações que assolam a sua delicada alma. Num lamento onde perpassa a incompreensão espiritual a que foi remetida. Condenando-a a viver na solidão infinita. O último soneto da colectânea, intitulado “Além”, expressa de forma contundente a angústia espiritual vivida por Maria Leonor Reis: “Para além do além, não há quem sonde/ O espasmo doloroso em que me agito./Se ponho em Deus o meu olhar, se o fito,/ Em meu olhar o próprio Deus se esconde! // Andam perdidas lá não sei onde,/ Ecoando talvez pelo Infinito,/ Aladas ressonâncias do meu grito/ A quem nem o silêncio me responde… // E na mudez de tudo o que desfila,/ Inda a pálida estrela, se cintila,/Virá do meu tremor escarnecer-se… // Enquanto das paragens onde
cismo,/ O meu grito, rolando pelo abismo,/ Nos ecos do silêncio vai perder-se!” (REIS, Maria Leonor; “Interrogando…”, Lisboa, 1923, págs. 43-44). Uma tonalidade intencionalmente sombria atravessa o livro de poemas “ Interrogando…”. Disso são exemplo os sonetos “Sombras”, “Fantasias”, “Noite”, “Ansiedade”, “Trevas”, “Nuvens”; e o citado poema “Além”. Mesmo nos poemas em que a luz aparece, a sua irra- diação é efémera e ilusória. Rapidamente desvanece face à inelutável presença da desilusão e do cansaço. Como acontece no soneto “ Estrelas…”, que passamos a transcrever: “ Há quem leia no Céu, (se a tempestade/ O não cobre de nuvens, que sombrias/ Apressem mais os derradeiros dias/ No caminho da nossa Eternidade…) // Há quem leia no Céu, se a Imensidade/ Enche a terra de luz e de harmonias, / Fantásticas histórias, profecias:/O destino da triste Humanidade! // Mas que podem dizer-vos as estrelas,/ Que não seja chamar-vos para elas?/ Que não seja guiar os nossos passos? // Que mais ledes? Oh! loucas criaturas,/ Que não seja uma cruz de desventuras/ Trazendo-nos a morte nos seus braços? ( op. cit., págs. 11-12). O livro de poemas “Interrogando…” revela-nos uma poetisa de reconhecido valor estético. Digna de figurar em qualquer obra sobre as poetisas nacionais. Autora de duas importantes obras, Maria Leonor Reis deixou ainda muitas composições inéditas. Aguardam pelo dia em que o terno e sonhador rebento, da “Ínclita Geração” de Carlos Reis, tenha o justo reconhecimento.

Texto escrito com a antiga grafia

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