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O Associativismo Urbano em 1924 – II

No semanário de 18/1 procurámos divulgar a importância do associativismo urbano na formação da mentalidade colectiva. O agudizar do custo de vida conduziu à criação dos sindicatos operários, na sua luta por melhores condições de vida. No campo cultural, a criação da biblioteca S. Miguel, mais tarde papelaria, a norte da actual relojoaria Costa, a fundação do Orfeão de Torres Novas, sob a regência do padre Maya dos Santos, a acção dos grupos Musical Torrejano e Dramático Torrejano, nascidos, mas agora em divórcio, com o centro Republicano 5 de Outubro, e do renascimento da Banda Operária Torrejana.

Vejamos hoje outros sectores. No campo assistencial predominava, a Misericórdia, que desde o Sidonismo, assumira uma feição de orientação católica, dirigindo a coordenação e funcionamento do seu Hospital, sito ao Carmo, onde inclusive procurara substituir os enfermeiros civis por religiosas, o que originou, em 1923, longa controvérsia entre o administrador do concelho, Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida e o então provedor, Dr. Carlos Augusto de Azevedo Mendes, que pode ser seguida na correspondência da Administração e em páginas de O Almonda. Para as suas necessidades contribuíam as vacadas realizadas nas Ferrarias, em praça inaugurada em 1921, por um grupo, muito publicitados neste semanário pelo seu grande defensor de sempre, o padre Maya. Mas, pelo caro do espectáculo e a sua localização, mau grado a carolice dos cavaleiros, bandarilheiros e forcados, a Misericórdia, que tomara conta da praça em 1922, vendo que os benefícios não compensavam, extinguiu­a 1925 (Gonçalves, Artur, Memórias de Torres Novas, 258).

Por sua vez, o Montepio, criado em 30 de Maio de 1862 (Gonçalves, Artur, O Montepio de Nª Sª da Nazaré e o Teatro em Torres Novas, 1937; Bretes, Faustino, Centenário do Mutualismo em Torres Novas, 1962: Santos, António Mário Lopes dos, Associação de Socorros Mútuos – Montepio de Nossa Senhora da Naza
ré de Torres Novas, 150 Anos de História, 2012), com altos e baixos ia mantendo o seu apoio aos sócios, na doença e no funeral, apoiado nos rendimentos que lhe vinham da quotização, das ofertas dos seus sócios benfeitores e das actividades, cinematográfica e teatral, levadas a efeito no seu Cine Teatro Virgínia. A direcção, eleita a 10 de Fevereiro de 1924, era presidida por José Raimundo Neto, secretário João Maria da Silva, secretário Manuel Rodrigues, vogais João Pereira do Canto, José Maria Ferreira, Bernardo Roque da Silva, Francisco da Silva, José Pereira Salvador e Domingos Marques. Ao conselho fiscal presidia João da Silva Costa e à Assembleia Geral, o já citado Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida. A maioria dos seus sócios, pequenos e médios comer
ciantes e industriais, artífices, mestres das oficinas e das fábricas de tecidos, algum proletariado mais consciente da importância do associativismo, representava na época, uma força social respeitável. Nestas eleições, onde só concorrera – o que era habitual – uma só lista, votaram 214 sócios.

Também no sector social, mas com sentido lúdico, também fundado nesse longínquo ano de 1862, a 21 de Fevereiro, o Clube Torrejano, centro privilegiado da «melhor sociedade torrejana», como era descrito na época, com um passado associado ao liberalismo fontista concelhio, onde se misturavam os grandes e médios agricultores concelhios, comerciantes e industrias, a classe dirigente dos serviços públicos municipais, das finanças e judiciários, profissões liberais, notários, farmacêuticos, médicos, assim como os oficiais dos diversos ramos do exército que estiveram nos séculos XiX e XX, instalados em Torres Novas. Palco por excelência da vida política concelhia, com grandes tradições de conservadorismo republicano e monárquico, acreditamos que nos seus salões se forjaram, além das alianças matrimoniais entre as jovens da elite concelhia e os jovens oficiais de artilharia ou de cavalaria, muitas das candidaturas eleitorais, como projectos de dinamização da actividade municipal. Nesse ano de 1924, mantinha­se a direcção do ano anterior, presidida pelo médico Dr. Vicente de Sousa Vinagre, secretário o tenente coronel José Rodrigues Brusco Júnior, tesoureiro. o proprietário Mário Ramos de Deus, vogal o Dr. Rafael da Silva Neves Duque. (Lº 3º das reuniões da Direcção-1914-1948, fls. 26v.) O secretário ausenta­se em junho para Alcobaça, ficando o presidente com o respectivo pelouro. (idem, 27v). Por sua vez, o Dr. Rafael Duque é nomeado governador civil de Leiria (O Almonda nº 256, 14/6/1924). A sua situação económica, na época, não é muito brilhante, levando ao aumento das quotas dos sócios ordinários para 5$00 e dos extraordinários para 7$50, e a jóia de ingresso para 60$00, já que a receita 144$00 não cobria a despesa, 315$63 (Idem, 5/5/1924, 27v). Agravada ainda a situação pelo aumento da renda, que a nova lei do inquilinato permitira passar de 42$00 mensais para 120$00 (idem, 5/9/1924, 28v).

No sector da educação, vemos surgir a Associação de Pais da Vila de Torres Novas, cujo objectivo, a defesa da educação e do ensino, procura com a ajuda dos professores e cidadãos empenhados, lutar contra o vício da taberna que leva tantos pais a permitirem o abandono da escola pelos filhos. Presidiu-a o então chefe local dos correios, Armando Marques da Paixão, secretariado por José Pereira, tesoureiro Manuel Luís Ferreira, vogais dois professores das escolas centrais da vila, João Tomás Gonçalves e José da Silva Paulo Júnior. Da sua acção sairá i a cantina escolar torrejana, para apoio aos alunos pobres, que é oficialmente inaugurada em 6 de Abril. (O Almonda nº 246, 6/4).

Por fim, no sector económico, a luta pela aplicação da lei das oito horas do horário do trabalho da associação dos caixeiros, leva à formação duma associação comercial, que tem como comissão fundadora os comerciantes Joaquim António Fagulha Júnior, Joaquim Ferreira Sopas, António Varanda, José da Silva Beja e Sebastião Vaz Baracho, que se encontra em fase de legalização, com a aprovação dos respectivos estatutos em Dezembro (Id, nº 282, 13/12).

antoniomario45@mail.com
O autor escreve de acordo com o anterior acordo ortográfico

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