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Pequenos em tudo

Quando eu era menino e moço as pessoas que queriam mostrar alguma cultura intervalavam as nossas conversas com palavras ou expressões em Francês. A classe médio-burguesa julgava com isso pôr o Zé-Povinho de boca aberta: “vejam só que até sabe francês”.

Como se “mudam os tempos e as vontades” agora, com a globalização, o inglês ganhou foros de língua internacional, que é. Já não são só os mesmos pequeno-burgueses que fazem gala em intrometer o inglês nos livros, nos jornais, nas televisões, nas teses de mestrado, etc., etc.

Contudo há uma grande diferença entre os tempos de antanho e os de hoje. Nos meus tempos de menino e moço, sobretudo quando se citava um frase ou expressão em francês, havia o cuidado de as traduzir. Hoje, além da epidemia dos acrónimos, as frases em inglês não se traduzem. Para quê? Todos têm obrigação de saber inglês porque a nossa língua é tão pobrezinha que nem chega para dizer “record”, “joker”, “shopping”, “lists”, “affairisme”,”doping”, “hackers”, ”the duke is unhurt. Thank God”. Só nas primeiras quatro páginas de um jornal dito “sério” encontrei estas pérolas do inglês.

Das duas uma, ou os articulistas não sabem português ou refugiam-se no jargão: “é difícil de traduzir”. Outra praga, que se desenvolveu com o turismo de massas é o nome das lojas em inglês. Nalgumas zonas deste Portugal pequenino quase não encontramos nomes em português.

Faz-me lembrar uma estória verdadeira por um senhor abade do Minho. Na altura em que as uvas estavam maduras, no seu passal havia uma grande videira por cima do portão da casa. Todos os dias ia lá um “pobre” pedir esmola e ao tocar à campainha começava logo a rezar muito alto a “Ave-maria” para que o senhor Abade lhe viesse dar esmola. Passada uma semana, o senhor Abade reparou que a videira por cima do portão estava quase vindimada. Entretanto, desconfiado do vindimador desconhecido, pôs-se à espreita. O pobre, ao chegar, lá começava a cantilena da “Ave-maria” e ao mesmo tempo ia ensacando no bornal umas uvasitas. O senhor Abade, nesse dia aparece de supetão, quando o “pobre” metia mais uns cachitos no bornal e só disse:´ “Então, meu amigo, isto é tudo nosso”? Respondeu o pobre: “Pois é, senhor Abade, o que está em Portugal é dos portugueses”. Acrescentaria eu: “O que está em Portugal é dos ingleses ou dos americanos”.

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