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A tormentosa viagem marítima do torrejano Fr. Nuno da Conceição

No nosso imaginário colectivo a época da Expansão portuguesa está intimamente associada a um período áureo de enorme sucesso e de grande glória para Portugal. Realidade histórica bastante exaltada nas descrições efectuadas pela maior parte dos cronistas na- cionais.

Apesar da grandeza dos feitos protagonizados pelos portugueses não podemos ignorar que, ligada à nossa extraordinária empresa marítima, há uma outra realidade, muitas vezes escamoteada dos manuais da História-Pátria. Isto porque a Expansão não foi esse mar de virtudes que alguns cronistas oficiais nos quiseram fazer crer. Os Descobrimentos e a Expansão deram azo à proliferação de infindáveis vícios e tragé- dias na sociedade portuguesa. Perigos que o eterno dramaturgo Gil Vicente (1465-1536) e o grande poeta Luís de Camões (1524-1580?) denunciaram nas suas principais obras.

O sonho da Expansão marítima acarretaria a queda de muitos portugueses nas teias da cupidez, da ociosidade, da luxúria, da corrupção e da vã cobiça pelas riquezas do Oriente.

Em seu torno floresceu uma literatura de viagens, muito em voga na época, onde eram narrados os dramas e as vicissitudes por que passaram muitos portugueses.

A maior parte dos relatos sobre a nossa tragédia marítima alcançaram, na altura, um enorme sucesso. Facto comprovado pelo elevado número de tiragens alcançado. Algumas obras seriam impressas mais do que uma vez. Por vezes com o recurso à contrafacção.

Uma ampla colecção destes relatos, originariamente publicados em folhas soltas, foi reunida pelo erudito Bernardo Gomes de Brito (1688-1759), sob o título “História Trágico- -Marítima”. Da sua importante compilação foram impressos apenas os dois primeiros tomos, de cinco que o eminente erudito pretendia imprimir. Entre as diversas publicações de Bernardo Gomes Brito, encontra-se o relato de Fr. Nuno da Conceição (1590-1635), sobre a “Viagem da Nau Nossa Senhora do Bom Despacho

Por felicidade, chegaria até nós três publicações da obra do torrejano ilustre: a edição prínceps – provavelmente da
tada tada de 1631 e reconhecível por não constar na obra o ano de publicação e a ordem a que pertencia Fr. Nuno da Conceição – e duas contrafacções posteriores.

Nascido na vila de Torres Novas, a 20 de Fevereiro de 1590, Frei Nuno da Conceição ingressaria no ano de 1607 na Ordem Terceira de S. Francisco. O torrejano ilustre veio a falecer no convento da vila da Erra a 12 de Novembro de 1635.

Por diversas vezes viajou para a Índia na qualidade de capelão das naus que faziam a rota marítima do Oriente. Foi sobre os perigos e tormentos que sofreu numa dessas viagens que resultou o citado livro “ Relação da Viagem e sucesso que teve a nau capitania Nª S.ª do Bom Despacho vindo da Índia no ano de 1630”. “ Para que [servisse] no futuro de exemplo” e de reflexão a todos os que andem sobre as águas do mar. O relato da viagem dá-nos a conhecer um excelente prosador que conhece de forma profunda os meandros da alma humana. Capaz dos maiores pecados e das maiores virtudes.

Na parte inicial da obra Frei Nuno da Conceição descreve, de forma sucinta, as peripécias e os vários locais por que passaram, desde a partida da barra de Lisboa, a 3 de Abril de 1629, até à chegada da nau à Índia. A primeira parte do percurso fez-se sem grandes atribulações (Conceição, Fr. Nuno; op. cit., fol.1-14). O mesmo não aconteceu com a viagem de regresso a Portugal. Em que os problemas atingiram enormes proporções. Motivados pela cupidez e ganância dos tripulantes da debilitada nau de “Nossa Senhora do Bom Despacho”, ao sobrecarregarem-na de imensas mercadorias.

Logo na partida de Goa, a 4 de Março de 1630, era bastante evidente o excesso e a má distribuição da carga da embarcação (inclinada à parte do bombordo). A estes reais problemas adicionava-se o pouco cuidado que fora dispensado na recuperação dos estragos que a “Nossa Senhora do Bom Despacho” padecia. Aos reparos feitos sobre o excesso de carga e às péssimas condições da nau os responsáveis desfaziam-se em múltiplas e irrisó- rias explicações. Desculpas que não conseguiram apaziguar os legítimos receios de alguns passageiros. Entre os quais o torrejano ilustre Fr. Nuno da Conceição.

A 23 de Maio uma enorme tormenta daria razão aos conscienciosos detractores: acometida por uma intempérie marítima a nau esteve em perigo de naufragar. Para o evitar foi deitada ao mar grande parte da mercadoria. As mazelas provocadas pela tempestade eram muitas: os paióis da nau cheios de pimenta foram arrombados e as poucas bombas existentes de extracção da água entupiram-se. A embarcação apresentava enormes rombos por onde entrava a água. Os múltiplos danos provocados na nau, levaram os oficiais da “Nossa Senhora do Bom Despacho” a solicitarem ao capitão-mor, Francisco de Melo, da conveniência em “ [arribarem] a Moçambique, e que quanto mais cedo seria melhor” (op. cit., fol. 16). Mas o parecer do capitão-mor foi contrário. Com falta de meios para arranjar a “Nossa Senhora do Bom Despacho” o chefe da tripulação pediu às outras naus “pastas de chumbo, estopas e candeias (op. cit., fol. 16-17). Os remendos seriam infrutíferos para suster as novas calamidades que se avizinhavam.

A 12 de Junho, perto do Cabo da Boa Esperança, “sobreveio de noite um grande temporal de Noroeste (…) com que a nau capitania abriu vinte e dois palmos de água” (op. cit., fol. 17). O perigo de naufrágio era iminente, o que desencadeou enormes agonias e aflições entre os homens e as mulheres. Valeram os trabalhos redobrados dos tripulantes, passageiros e a para que os salve de tamanha aflição. Mais uma vez são atendidos nas suas fervorosas súplicas. Mas o descanso é diminuto. Na pequena baía onde se encontram a angústia volta a cair sobre eles: um pajem da nau irrompe pela escotilha a chorar e a gritar que havia fogo na nau. A aflição toma conta dos passageiros e da tripulação que acodem a extinguir o incêndio.

Retidos por largo tempo frente ao Cabo da Esperança, a 6 de Julho a nau deixa por fim a baía rumo a Angola. A 12 de Julho uma nova tormenta abateu-se sobre a nau deixando-a num estado miserável. Para segurança de todos foi lançado mais uma vez para o mar muita da preciosa mercadoria. A 5 de agosto chegam por fim a Angola. Onde se fizeram os arranjos possíveis. No dia 5 de Abril de 1631 a nau sairia do porto de Luanda com destino a Lisboa, sem que os inúmeros percalços abandonassem a afligida embarcação.

Finalmente a 3 de Julho a nau “Nossa Senhora do Bom Despacho” assomava em Cascais, para no dia seguinte entrar na barra de Lisboa. Os oficiais da Ribeira que a viram “espantaram-se jurando que nunca outra nau chegara àquele porto tão destroçada, e que em suas consciências entendiam que se de Angola para este reino tivera alguma tormenta se fora a nau a pique” (op. cit., fol. 43). Para alegria dos passageiros a tormentosa viagem não desembocou no inevitável naufrágio. Como sucedeu em muitos dos outros relatos da colectânea de Bernardo Gomes Brito. Mas ficaria bem claro na descrição do torrejano ilustre, Fr. Nuno da Conceição, que os perigos por que passaram as naus e as pessoas foi consequência inelutável da desmedida cobiça dos portugueses pelas riquezas do Oriente.

Texto escrito com a antiga ortografia

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