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A Palestra do Dr. Egas Moniz na Exposição do “Grupo Silva Porto”

O pintor torrejano Carlos Reis (1863-1940) teve no ensino do seu mestre Silva Porto (1850- -1893) um esteio fundamental na forma como privilegiou na pintura o contacto com a natu- reza e o gosto pela observação das terras e dos costumes portugueses. Nas paisagens campestres do torrejano ilustre palpita a mais genuína sentimentalidade, depurada pela exímia mestria com que espalhava de maneira harmoniosa a luz e as cores na superfície das telas. Fazendo com que a natureza, os objectos e as personagens retratadas adquiram um terno encanto e uma radiosa alegria.

A incessante procura de Carlos Reis em captar os aspectos ligados à vida rural, à sua luz e à beleza da paisagem campestre, levou-o a criar com os seus discípulos dilectos, primeiramente, o “Grupo Ar-Livre” (1910-1923) e, mais tarde, o “Grupo Silva Porto” (1927-1940). Com eles chegou a calcorrear diversas zonas do país com o objectivo de fixar nas suas telas o encanto dos céus e das cores da paisagem portuguesa.

Muitos dos trabalhos do último grupo criado pelo torrejano ilustre, o denominado “Grupo do Silva Porto”, seriam posteriormente apresentados ao público citadino em salões de arte. A primeira exposição realizada pelo Grupo Silva Porto deu-se no mês de Fevereiro de 1927, na Sociedade de Belas Artes, em Lisboa. Na abertura das exposições do grupo era frequente o recurso a uma destacada figura do panorama nacional. A ela cabia proferir uma conferência tendo como pano de fundo a arte.

A 7 Fevereiro de 1930, a Exposição do Grupo de Silva Porto, na A Palestra do Dr. Egas Moniz na Exposição do “Grupo Silva Porto”Sociedade Nacional das Belas Artes, contaria – a convite de Carlos Reis – com a presença do professor Egas Moniz (1874-1955). O tema da palestra do eminente neurologista incidiu sobre “Os Pintores da Loucura”. (Na primeira fotografia que acompanha o artigo vemos o nosso Prémio Nobel da Medicina (1949) a proferir a sua palestra na sala principal da exposição, sob o olhar atento de uma numerosa plateia de interessados. Onde se destaca, com a sua inconfundível cabeleira branca e com a mão no queixo, o torrejano ilustre, Carlos Reis). Na parte introdutória da palestra Egas Moniz elogia os artistas seguidores do mestre Silva Porto. Isto porque as suas pinturas “respiram o ar purificado das montanhas, aquecem-se ao sol vivo de Portugal, vibram na
contemplação sibarita das paisagens que se desdobram em perspectivas de complicada po- licromia, sentem o remoinhar das ondas acariciando voluptuosamente as areias movediças das praias, vivem a existência em convívio com a Natureza tranquila”. (MONIZ, Egas; “Os Pintores da Loucura”, Imprensa Nacional, Lisboa, 1930, pág. 1). Segundo o distinto cientista as figuras que perpassam nas telas dos pintores do “Grupo Silva Porto”, em nada se assemelham “aos reptos shakespearianos da desgraça, ou das ca- tadupas frementes das convulsões sociais” de alguns artis- tas. São portadores de uma alma sã em convívio harmonioso com a natureza. Professo admirador do natura- lismo na pintura, Egas Moniz vai então delimitar as correntes estéticas que estabelecem uma relação harmoniosa com a natureza. Para desta forma demarcar na arte o que pertence ao foro da normalidade e o que deriva do estado patológico do pintor. A sua argumentação tem como objectivo provar que há nas criações artísticas de alguns reputados pintores elementos patológicos. Fruto da projecção na tela de pulsões inconscientes decorrentes do estado de alma do pintor.

Para demonstrar a sua tese o doutor Egas Moniz desenvolve o seu tema em torno de dois aspectos nucleares: “pintores de loucura alheia e pintores surpreendidos pela alienação mental trasladando para a tela fases da sua psicose” (op. cit., pág. 2).

No primeiro grupo de artistas (pintores da loucura) o ilustre neurologista cita diversos autores que passaram para as suas telas grandes dramas históricos ou cenas realistas de asilos de alienados em que o tema da loucura tem o papel de destaque. Mas, para Egas Moniz, estes artistas apenas abordaram a loucura no seu aspecto iconográfico. As suas obras não revelam a loucura em si: “falam apenas da anarquia cinética que na
expressão mais alta, na máscara, deixa vincos de dor e de tristeza, espasmos de có- lera, flacidezes apáticas de alheamento” (op. cit., pág. 3).

A pintura da “loucura alheia” adquire a sua plena dimensão em artistas como Albrecht Dürer (1471-1528). Egas  Moniz dá o exemplo do seu famoso quadro “Melancolia”, como o paradi- gma de um verdadeiro “tratado de patologia mental”. As mais dolorosas e ne- gras obsessões psicanalíticas transparecerem na figura principal retratada no seu quadro. Digno de referência – em relação ao tema da loucura – são, para Egas Moniz, as correntes modernas da pintura, como o cubismo e o expressionismo. Sem menosprezar o valor artís- tico dos novos pintores que começavam a dominar o mundo da arte, o ilustre neurologista coloca as suas produções centradas no individualismo emoti- vo e ligadas à expressão de formas metafísicas. As pinturas dos novos autores destacam- -se por serem mais cerebrais do que sensoriais (esta última característica é pertença da corrente naturalista), afastando-se da concepção humana de beleza imortalizada na arte grega. Profundo conhecedor das novas correntes artísticas Egas Moniz assemelha, sob o ponto de vista clínico, algumas das pinturas dos cubistas e expressionistas às manifestações picturais dos esquizofrénicos. Na galeria do segundo grupo de artistas (obras de arte de pintores loucos ou surpreendidos pela loucura), a análise do eminente neurologista recai sobre alguns autores conhecidos do grande público como: El Greco (1541-1614), Van Gogh (1853- -1890) e Francisco de Goya (1746-1828). Nas telas de El Greco há pequenos sinais que denunciam a loucura do pintor. Diagnóstico que é possível aferir através das excentricidades e bizarrias que o artista grego retratava “nas suas figuras angulosas e ondulantes” que o aproximam mais de um caricaturista do que de um pintor. Em alguns artistas da escola flamenga também Egas Moniz conseguiu depreender a doença da loucura. Nas suas obras os estados de demência são claramente visíveis, chegando às vezes a caírem no exacerbamento. Os casos de Van Gogh e de Francisco de Goya mereceram por parte de Egas Moniz uma análise mais alargada. Isto porque o eminente neurologista pretendia estabelecer uma forte correlação entre algumas das suas obras com as fases da vida em que os pintores foram acometidos pela síndroma da loucura. Egas Moniz chega até a equipar muitas das criações monstruosas do pintor espanhol às que eram feitas pelos doentes psiquiátricos do famoso hospital de Salpêtrière. Ao terminar a sua locução o ilustre cientista deixou bem claro que este ambiente carregado de loucura não transparece nas obras dos amigos de Silva Porto. Nas suas telas pode-se respirar um “ambiente saudável, onde a Natureza vibra a cada canto nos [seus] quadros equilibrados, (…) feitos à luz clara da sã razão e do bom sol português”( op. cit., pág. 12).

Texto escrito com a antiga grafia

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