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Streetdog pelo curto

A filha deixou-me herança quando foi para Lisboa: uma cadela rafeira, preta, orelhas grandes e rabo afilado. Enquanto a situação na capital não se resolve está à minha responsabilidade.

Deve ter sido maltratada em cachorra e por isso tem pavor de pessoas, especialmente de crianças. Lá em casa conquistou o seu lugar. Eu estava habituado a ter cães que chamava quando queria ir passear mas agora é ela que através de ganidos ou com uns olhares capazes de partir gelo, me chama, quando a horas mais ou menos certas, quer ir à rua. Não precisa de falar e domina admiravelmente o jogo psicológico! Quando vou com ela passear puxa desalmadamente pela coleira e evita o todo o custo as pessoas que metem conversa comigo pelo facto de eu ir atrelado à cadela: ai que bonita posso fazer uma festa? Ela encolhe-se. Só a raras pessoas, vá-se lá saber porquê, permite um afago ou dá qualquer confiança. Eu continuo despreocupadamente e as pessoas teimam em se meter com ela. A mim não me ligam nenhuma a não ser para me perguntar se é podengo, se é arraçada de galgo ou perdigueiro, se tem sangue disto ou daquilo. Ou então para me recriminar veladamente por a cadela ser medrosa, por não ter cuidado com os carros, por sim e porque não, como se eu fosse culpado das suas taras.

Tento ensiná-la e aos poucos vou conseguindo que faça aquilo que quero embora demonstre explicitamente que só o faz quando lhe apetece ou quando está na mira de uma guloseima.

E a malta sempre naquela teima de lhe achar parecença com esta ou aquela raça! Eu já tenho resposta pronta: que sim, que é duma raça de cães citadinos que se está a apurar entre Lisboa e Londres, com a particularidade de não serem bons em nada, exceto na aptidão em se tornarem um elemento familiar: streetdog pelo curto.

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