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A decadência da democracia republicana

A crise económica, social e política, são o espelho dos últimos anos da 1ª República Portuguesa, consequências nunca resolvidas dos múltiplos interesses forjados com a intervenção pátria na 1ª Guerra Mundial. Os sucessivos governos não conseguem resolver a situação do deficit orçamental, dado que os interesses das classes so- ciais se opõem nas resoluções e nos caminhos a seguir. Patronato e operariado colocam os seus interesses acima da ideia de república, a classe média e pequena-burguesa que a apadrinhou e lutou por aquela, comerciantes e funcionalismo público, professores e quadros profissionais, militares e outras forças de segurança, sentem- -se defraudadas ante um aumento contínuo dos preços e a estagnação, para não dizer retrocesso, dos salários e da qualidade de vida. As Associações corporativas vão estruturar-se a nível nacional, ganhar força económica e política, adquirir órgãos de imprensa de grande divulgação pública, como o Século, o Diário de Notícias, impor aos partidos, pela corrupção dos seus elementos mais preponderantes, as suas formas de colocar o Estado ao serviço dos seus interesses.

Desde o Sidonismo, que as forças minoritárias, sujeitas à maior influência política nacional do Partido Democrático, procuram, através de alianças com o poder económico da banca, da finança, da grane indústria, do impor-export, com a criação de novos partidos, opor-se à sua hegemonia parlamentar. Conjugam o nacionalismo derrotado do sidonismo, a igreja católica, as elites militares conservadoras e, em muitos casos, de ideologia monárquica, prejudicadas com o ingresso nos quadros de oficiais e, dos milicianos vindos da guerra, de modo a criar a esperança dum regresso à monarquia ou a um estado autoritário e corporativo, como acontecia em Espanha com Primo de Rivera, na Itália com Mussolini. Acresce a necessidade de refrear e, se possível, eliminar o perigo do comunismo internacional que se espalhava a partir da União Soviética, anunciado no perigo grevista e no recrudescimento dos atentados bombistas, a partir de 1923. O domínio do Parlamento, consequentemente do governo, era o seu objectivo imediato, onde partidos e grupos não conseguiam uma unidade capaz de criar um governo estável, pronto à resolução do endividamento crónico e do crescimento da inflação, provocada pela subida acentuada dos preços. Os partidos extremavam-se. Dois que dominavam, o partido democrático e o partido nacionalista. Os outros jogavam com ambos, conforme os seus interesses de ocasião, como os católicos, os monárquicos, os socialistas, os radicais, os independentes.

Mas, os dois partidos principais sofriam de cisões internas. Os democráticos, entre conservadores (os bonzos) de António Maria da Silva e a esquerda democrática (os canhotos),sob a chefia de José Domingues dos Santos. Por sua vez, os nacionalistas, entre os conservadores (Ginestal Machado, Cunha Leal) e os do grupo radical de Álvaro de Castro. É a partir deste agitado quoti- diano nacional de fins de 1923 e quase todo o de 1924, que nos iremos debruçar sobre a sua influência no concelho de Torres Novas.  Nos finais de 1923, a tentativa dum governo de unidade nacio- nal presidido por Afonso Costa não resultou pela intransigência do partido nacionalista. O presidente da república, Teixeira Gomes, recentemente empossado a 5 de Outubro, nomeia Ginestal Machado, que forma um governo nacionalista, mas de muito curta duração (15/11/1923- -18/12/1923). Tentou a dissolução do parlamento, recusada pelo Presidente da República. Procura, de seguida, através duma moção de confiança no governo, que que é derrotada pela maioria dos deputados. Dentro do próprio partido, a facção chefiada por Álvaro de Cas
tro, opõe-se, e sai do partido, que, também por outros abandonado, enfraquece.

O ano de 1924 vai ser dirigido por um governo mais radical, aberto às forças democráticas e mesmo ao grupo Seara Nova, sob a direcção de Álvaro de Castro (18/12/1923-6/7/1924) e, depois, por um governo democrático de Alfredo Rodrigues Gaspar (6/7/1924-22/11/1924). Regressemos ao concelho, onde nos finais de 1923, pontifica no executivo municipal uma maioria nacionalista, presidida pelo Dr. João Martins de Azevedo. O partido democrático, minoritário, no executivo, mas presidindo à Câmara Municipal, pelo contador da comarca Dr. Augusto Lopes Mendes da Silva, mantém grande influência urbana, através do Centro republicano 5 de Outubro, sobre a direcção do comerciante António Puga e do director fiscal dos impostos Amaral Cortesão. No sector católico, através da Acção Católica, da Juventude Católica e do Grupo Nun’Álvares, na direcção da Misericórdia e do hospital , tendo como órgão de informação o único existente no concelho, o semanário O Almonda, distinguem-se o Dr. Alberto Dinis da Fonseca, Dr. Carlos de Azevedo Mendes, Dr. Augusto de Azevedo Mendes, o vigário da vara padre António de Oliveira Reis (Salvador e Sta. Maria), e os padres João Nunes Ferreira
(S. Pedro) e José António da Silva (Santiago). No sector monárquico, com pouca visibilidade política, o visconde de S. Gião, João Maria Amado de Melo Ramalho Pimentel de Almeida da Cunha e Vasconcelos, Acácio Sirgado Rodrigues (Quinta do Melo – Riachos), este último grande defensor das touradas locais e da construção da futura praça de touros.

Na esquerda radical, associada à maçonaria, ressaltam as figuras do Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida e o Dr. José Maria Dantas de Sousa Baracho Júnior, o Grupo Musical Torrejano, dirigido por Manuel Antunes dos Santos. Além destes, a elite política concelhia, que conviviam de forma amena no Clube Torrejano, onde se associava a oficialidade da Escola de Equitação, sobressaindo na época o tenente coronel Mouzinho de Albuquerque, movimenta-se o sector operário, orientado, a partir de 1921, por dois sectores influentes, o anarco-sindicalita e o comunista, onde se distinguia o grupo anarquista revolucionário Luz e Liberdade, secretariado pelo segeiro Faustino Bretes, correspondente do jornal operário diário a Batalha, e o sector operário católico, onde pontificam, entre outros, Alexandre Queirós Alva, Joaquim da Silva Linhas, Joaquim da Silva Aires, sócios e directores da renovada Banda Operária Torrejana, operários da Companhia Nacional de Fiação e Tecidos. Em redor destas figuras e dos que os apoiam vai decorrer, como veremos, a vida local até 1926.

antoniomario45@mail.com

 

 

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