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Cartas de um Torrejano Ilustre ao último Rei de PortugalVítor

No início do ano de 1927 o rei D. Manuel II envia um telegrama a D. Manuel Mendes da Conceição Santos, a desejar-lhe um Bom Ano. Votos que serão retribuídos a 1 de Janeiro pelo torrejano ilustre. No dia de Reis desse ano, o monarca volta a escrever a D. Manuel Mendes da Conceição. O teor da missiva põe a descoberto o desabafo de uma alma desencantada com o rumo do país. Escrita pelo rei, com «o coração nas mãos», a carta – que passamos a transcrever – dá a conhecer ao «Seu Prelado» as suas mais íntimas preocupações e o comum anseio em torno do futuro da Pátria portuguesa e do catolicismo:

“Reverendíssimo Senhor […] Hoje chega-me às mãos a sua cativante carta de agradecimento ao meu Telegrama de «Boas Festas». […] Quem me dera que eu pudesse, em estilo igual ao seu, expor-lhe o meu pensamento: mas isso seria demasiada ambição! Mas Senhor Arcebispo, uma frase da sua tão bela carta anima-me a escrever «com o coração nas mãos». […] Essa opinião Senhor Arcebispo […] é para mim um título de glória pois assim o considero, uma tão completa aprovação do meu modo de pensar e de ver. Essa frase […] é um programa, pois esse programa é baseado sobre um lema, «Deus e Pátria». O erro tem sido que, não se serve nem Deus, nem a Pátria: servem-se de Deus e da Pátria!! Invertendo-se as palavras, criou-se o programa que tem levado o País e a Fé ao estado desolador em que se encontram. As lutas têm sido, não em prol de Deus e da Pátria, mas em favor de interesses individuais. A colectividade não existe por dominar o individualismo, e a educação do indivíduo é falsa pois não foi baseada sobre os Princípios de «Deus e da Pátria». Quando a base é errada, forçosamente a constru
ção cairá. O problema Senhor Arcebispo, mais grave, é crise de carácter, e sempre pela mesma razão. Demoliu-se o princípio da autoridade; como pode uma sociedade existir sem autoridade? O resultado é a decadência, pois a sociedade é como uma escada composta de degraus sobre os quais, sobem e descem as vidas humanas […]. Vemos o mundo sacudido por tempestades, empurrado por um vento de loucura que a todos desnorteia. Vemos a luta de classes, vemos os espíritos dos extremos opostos, vemos mos a maior crise que jamais o globo terrestre atravessou, causada pela intoxicação das ideias falsas, da falha de princípios, da falta de Religião, de Patriotismo e de Disciplina […]. De que servem as lutas entre aqueles que deviam trabalhar juntos? […] Criar divisões, auxiliá-las, serve apenas a criar fraquezas, e quantas vezes temos presenciado esse triste e lamentável espectáculo, tanto na política, como na Religião, espectáculos que se podiam ter facilmente evitado, havendo tacto e boa vontade. Acirrar os ânimos excitados é nocivo e contraproducente, pois as questões graves, os problemas de capital importância não podem ser resolvidos durante lutas por causas que na realidade não existem.

Quantos males se poderiam ter evitado, males que estou certo, o meu Prelado lamenta tão profundamente como eu! E quais têm sido os lucros? Desuniões, incertezas, dúvidas. Ah! Senhor Arcebispo o nosso Portugal merece mais e melhor, e estou absolutamente convencido, que está de inteiramente de acordo comigo.” (“Cartas (1926-1936), Rei D. Manuel II, Rainha D. Amélia, Arcebispo de Évora”, Separata da Revista “Alvoradas”, Évora, 1961, págs. 16-18). Na parte final da extraordinária missiva D. Manuel II interpela o «Seu Prelado» para se unir à nobre causa de regeneração da alma portuguesa. Um extenso período de silêncio vai acontecer entre a carta do rei e a resposta de D. Manuel Mendes da Conceição. Envolvido nos seus múltiplos afazeres o Arcebispo de Évora ia adiando a elaboração da ansiada carta. A sincera confissão real merecia, por parte do torrejano ilustre, uma resposta condigna. Só possível num período em que os problemas da arquidiocese não aglutinassem as suas múltiplas preocupações.

O esperado momento aconteceria a 30 de Julho de 1928. A missiva do torrejano ilustre diagnostica de forma lúcida e perspicaz as verdadeiras causas que levaram à degenerescência da alma nacional. Mas o contributo de D. Manuel Mendes da Conceição não ficaria por aqui: a extraordinária carta do torrejano ilustre vai ao ponto de sugestionar caminhos com vista à extinção das doenças que minavam a alma portuguesa: “Senhor […] Porque não escrevi pois? Vossa Majestade não imagina sequer a vida apensionada e agitada que eu levo e que seria de condenado às galés se não fosse de apostolado. Positivamente passam-se meses e meses em que não tenho a bem dizer um momento de sossego. E a ideia de que tenho de me dirigir a uma personalidade tão eminente como Vossa Majestade produz em mim um certo retraimento, sinto que não devo escrever sem uma grande quietação e calma, e isso é o que raras vezes encontro. […] E agora já que Vossa Majestade se digna a falar-me do problema nacional e mostra desejos de que eu o aborde, seja-me permitido falar com toda a fraqueza […]. É infelizmente verdade que se não tem servido Deus e a Pátria como se devia servir; mas a razão é que de há muito quase se não têm ensinado as almas a amar a Deus e a Pátria. A religião durante anos e anos reduziu-se a um formalismo estéril, sem raízes nas almas, sem vitalidade nas suas manifestações, sem liberdade no seu desenvolvimento, e assim é que na hora da tempestade o que se julgava o grande edifício religioso desabou ruidosamente; e, se não fossem as colunas humildes mas que havia por debaixo de toda essa construção tão aparatosa como fictícia, a ruína teria sido completa. O patriotismo, por outro lado, era uma fórmula convencional, que cada qual aplicava a seu modo para fazer vingar os próprios interesses e triunfar o seu partido que de ordinário era também uma grande cooperativa de exploração do património comum em proveito próprio, e daí a falta de civismo nos homens que deviam salvaguardar os interesses da grei […]. Deus e Pátria, cada qual na sua ordem, continuaram a ser duas ideias sublimes, duas causas sagradas, mas entre estas ideias e a alma colectiva cavara-se um abismo, e daí a ineficácia para electrizar esta alma. De quem é a culpa? […] Parece que há no sangue português uma infecção de indisciplina e de desconfiança que contaminou até os organismos que deviam ser mais sadios […],o que tudo mostra que a alma nacional está eivada de graves defeitos e que é empresa assaz difícil congregar vontades de modo a fazê-las convergir ordenadamente para um determinado objectivo de renovação patriótica. O primeiro trabalho a fazer é pois, o de curar a alma nacional, expurgando-a dos defeitos que a abastardam e fazer reviver nela o germe das virtudes ancestrais. É essa a missão que me cabe a mim como pastor de almas; a ela me vou devotando e a Deus peço que dos meus trabalhos algo de proveitoso resulte, pois reconheço a minha absoluta insuficiência para tarefa tão alevantada. […] Falta-me para tanto competência e falta-me até o tempo material. Creio porém que na tarefa a que por dever me consagro eu colaboro como sei e posso nessa grande obra de união sagrada ante a qual se extasia o alto espírito de Vossa Majestade […]”(op. cit.; págs. 20-24). Esta carta (da qual transcrevemos alguns fragmentos) teve um efeito bastante emotivo na alma de D. Manuel II. O próprio monarca classificaria a sua correspondência com o torrejano ilustre como “verdadeiramente extraordinária!”. Os anos decorreram sem que as duas almas, frementes de amor “a Deus e à Pátria”, deixassem de se corresponder. A última carta enviada pelo torrejano ilustre a D. Manuel II aconteceu em 27 de Fevereiro de 1932. Alguns meses antes da morte do rei, a 2 de Julho de 1932. Poucas foram as correspondências epistolares portuguesas em que o problema nacional foi colocado com tão sábia acutilância e profundidade. Revelador de duas almas gémeas enobrecidas pela generosidade e enorme amor a Deus e à sua querida Pátria. Tão martirizada por interesses vis!

Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo!
Texto escrito com a antiga ortografia

 

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