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Dois grandes escritores

Há dias tive nas mãos a obra de Sónia Louro com o título “Eça de Queirós segundo Fradique Mendes”, um poeta fictício que Eça criou, e veio-me ao pensamento falar de duas personalidades de vulto das letras portuguesas. São então Eça de Queirós e Fernando Pessoa, que sendo muito diferentes na atividade literária, também têm alguns paralelismos no seu percurso de vida. De facto, ambos nasceram no século XIX, o primeiro em meados, e Pessoa já no fim, e em termos familiares os dois tiveram um caminho de instabilidade que apesar de tudo os não impediu de terem chegado a lugares cimeiros. Também no que se refere aos heterónimos, são sobejamente conhecidos os “outros eus” de Pessoa, como Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, mas de Eça, com a sua especificidade, muito pouco se conhece dele, no caso a criação de Fradique Mendes, como acima se diz, também um heterónimo, mas coletivo. É que Carlos Fradique Mendes é não só de Eça, mas também de Teófilo Braga e de Antero, entre outros, do designado grupo do Cenáculo, uma tertúlia literária e política. Também o objetivo de Eça em escrever a “Correspondência de Fradique Mendes” era de traçar “as feições desse transcendente espírito”. Nessas feições cabem além de poeta fictício, o ser irreverente, culto, excêntrico e sempre a par das novidades da ciência, bem enquadrado no século XIX, portanto. Direi ainda que o autor de “Os Maias” se destacou como escritor, com muitos romances, Pessoa mais como grande poeta, sendo “Mensagem” a única obra publicada em vida. Costuma dizer-se que cada um vive o tempo à sua maneira e é moldado por ele. O tempo do Realismo de Eça nada tem a ver com o Modernismo de Fernando Pessoa, porque o seu tempo, século XX, foi por ele vivido quarenta anos mais tarde.

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