Home > Colaboradores > António Mário Lopes dos Santos > O Concelho em 1923 – alterações estruturais

O Concelho em 1923 – alterações estruturais

1923 foi mais um ano de crise para o país, como tentámos demonstrar anteriormente, e Torres Novas dela se ressentiu, no sector económico de base agrícola, em contraste com a política governamental de apoio comercial e industrial republicanas. Distanciamento visível através dum poder municipal, cuja composição assentava maioritariamente no peso eleitoral das freguesias rurais, onde o catolicismo recupera e se reenraiza, de forma lenta, mas irreversível, contra o laicismo anticlerical do centro urbano e freguesias anexas (Lapas, Ribeira, Brogueira), este com base no apoio do comércio, indústria metalomecânica, professores, funcionários públicos.

A partir da criação da diocese de Leiria, em 17 de Janeiro de 1918, e da acção urbano/concelhia do Juventude Católica Torrejana, coordenada pelo padre Nunes Ferreira e pelo grupo intelectual católico local proveniente do CADC coimbrão (Dr. Carlos de Azevedo Mendes, Dr. Alberto Dinis da Fonseca, Dr. Augusto de Azevedo Mendes, apoiados no torrejano arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos), com controlo da administração da Misericórdia e do seu hospital e com influência no elitismo monárquico-católico-burguês do Clube Torrejano, onde se exibe com certa sobranceria a oficialidade da Escola de Equitação, sob a chefia do coronel Mousinho de Albuquerque, o domínio da Câmara Municipal ( Comissão Administrativa e maioria do
Senado Municipal) transforma-se num apoio à melhoria das estradas que da vila, pela Pedrógão e Alqueidão, e pelas freguesias de Chancelaria e Assentis, permitem o trânsito para o Bairro, e através da Serra de Aire, para Fátima, onde tomava forma e substância o milagre de Fátima de 1917.

Contribui localmente para a sua publicidade o semanário o Almonda, que, através da sua redacção, como dos seus colaboradores nas freguesias, publicitam as mobilizações de peregrinos, que dessas e transitando por essas localidades, vão cimentar a rotina nacional das peregrinações rumo a Fátima, com maior desenvolvimento na década de vinte (Bicho, Joaquim, Pinceladas Torrejanas, Torres Novas e os Acontecimentos de Fátima, págs. 165/174). A Voz de Fátima, criação do Dr. Alberto em 1922, impresso na tipografia torrejana de S. Miguel, que lhe pertence, vai, sob a direcção do cónego Dr. Manuel Nunes Formigão, professor do Liceu Sá da Bandeira, de Santarém, ser a voz nacional de Fátima em cada paróquia do país.

Mas Torres Novas sofre, nesse ano de 1923, importantes alterações que influenciam o seu habitat de forma acentuada. O mais importante, o início da eletrificação do centro urbano, publicitado no semanário, no final do ano de 1922, «Está constituída a Empreza Eléctrica na vila com o activo industrial José Ferreira, os importantes proprietários Mário de Deus e Dr. Pedro Maia e ainda os capitalistas Dr. Augusto Moita e Rafael Duque (O Almonda nº 177, 10/12). O periódico publica a escritura respectiva da Empresa do Almonda Limitada, para exploração da energia hidro-eléctrica do rio Almonda nos termos dos respectivos contratos ou concessões das quedas dos Pimentéis e Caldeirão e duma outra a jusante do moinho dos Gafos com um canal de fuga para o moinho da Cova» Capital, 200 contos. Sócios da empresa, José Manuel Ferreira, José Antunes, Dr. José da Cunha Ferreira, Dr. Pedro Maia, Mário de Deus, Sr. Augusto Moita de Deus, Dr. Rafael Duque e Dr. Vicente Vinagre. (Idem, nº 190, 11/3/1923). (veja-se A Iluminação Pública e a Electricidade na Vila de Torres Novas, José Ribeiro Sineiro, ed. Mun. T. Novas, 2010).

Outro acontecimento digno de destaque que vai alterar a estrutura administrativa concelhia é a da criação de freguesia de Riachos, pela lei nº1470(D. do Governo nº185, 1ª série,28/8) que se transcreve: «Em nome da Nação, o Congresso da república decreta, e eu promulgo o seguinte:

Artigo 1º – É criada no concelho de Torres Novas, com sede na povoação dos Riachos, uma freguesia civil que se denominará Freguesa de Riachos, e terá a seguinte área: a parte da freguesia de Sant’Iago, do mesmo concelho, compreendida dentro do perímetro limitado pela estrada distrital nº 124, a partir da Ponte Nova, sobre o Rio Almonda e a sua margem esquerda, até ao cruzamento com a estrada distrital nº 129, próximo da Ponte Pequena, sobre o Ribeiro da Boa Água seguindo esta estrada até aos muros de vedação, pelo norte dos terrenos da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses adjacentes ao lugar do Entroncamento, acompanhando esses muros até à estrada municipal chamada das Vendas, pela qual continua até encontrar a linha divisória dos concelhos de Torres Novas e Golegã, prosseguindo ao longo desta linha até à margem esquerda do rio Almonda, cujo curso sobe até encontrar a referida Ponte Nova, início e termo da linha que envolve aquele perímetro.

Artigo 2º – Fica revogada a legislação em contrário.
O Presidente do Ministério e Ministro do Interior a faça imprimir, publicar e correr. Paços do Governo da Re- pública, 28 de Agosto de 1923 – António José de Almeida – António Maria da Silva.» (Gonçalves, Artur, mosaico Torrejano, págs. 64/65; Santos, Torres Novas na 1ª República, págs. 293/294).

Também, no campo da instrução, a inauguração da escola do ensino primário ao Salvador, no edifício do antigo colégio Jesus Maria José Um outro acontecimento de grande importância para a regularização do trânsito urbano e expansão da vila além do rio Almonda, aliviando o casco interno da vila histórica, é o impulso das obras da Avenida Municipal, levadas a cabo pela Câmara presidida pelo Dr. João Martins de Azevedo.
Na década de 20, as mudanças começam a definir a vila futura.

antoniomario45@gmail.com

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *