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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Muitos passam. Muitos olham. Muitos ouvem. Poucos vêem…

Por: Dr.ª Telma Gomes

Muitos passam. Olham fu- gazmente, o som é ensurdecedor, e o cheiro é o típico, normal e expectável. Dezenas de cães, de cada lado dos corredores, ladram e mostram a euforia de quem quer sair dali, de quem procura quem os abandonou à sua sorte. Muitos passam. Olham e ouvem. Mas poucos vêem. Dentro de uma boxe, com um número variável de animais, é difícil ver, claramente, um indivíduo. Vê-se o conjunto, um alvoroço, muito barulho. Há quem entre com uma expectativa romanceada de que, num abrigo, existem poucos animais, e que todos estão tranquilos e ficarão silenciosos à passagem de um estranho. Há quem não queira saber, que apregoe a quem quiser ouvir o seu amor por animais e vá adquirir a locais de venda na Internet o Lulu mais barato que encontrar, por curtas centenas de euros. Até pode nem conhecer a proveniência do animal em causa, “mas não faz mal”, porque o objetivo era mesmo ter um cachorrinho pequenino, branquinho e de pelo fofinho para o Natal.
Muitos passam. Muitos olham. Muitos ouvem. Poucos vêem. A mudança de comportamento de cada animal, de cada indivíduo dentro e fora da boxe é absolutamente impressionante. Na boxe, todos são um conjunto, uma matilha eufórica e ruidosa, fora dela, cada indivíduo se expressa como tal: uma enorme carência de carinho. Uma enorme vontade de agradar. Os “velhos”, os “feios”, tornam-se belos, de felizes. Os olhares enchem o coração de quem ousa retribuir o olhar, verdadeiramente. Há aqueles que, simplesmente, saltam para o colo do incauto que se aproximar, como se, desde sempre, o colo de um humano fosse o seu lugar. O cachorrinho pequenino, branquinho, de pelo fofinho para o Natal, lem- bram-se? Cresceu e, quem diria, ladra! Está na boxe 10, foi atirado para dentro do abrigo. É adulto, hoje. Menos adotável. Menos fofinho. Foi trocado por outro, e os mimos que eram exclusivamente seus, são agora escassos, partilhados por uma centena de outros animais. Arrisco-me a afirmar que esta é a realidade dos abrigos para animais, um pouco por todo o país. Todos passam, olham e ouvem. Raros são os que vêem. Abundantes são os que ficam.

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