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Milagre de Natal

No Natal há reencontros, reconciliam-se desavindos com abraços e beijos. O comércio rejubila e oferece descontos à percentagem, logo no princípio de novembro. Chega o pai Natal no trenó voador e até as renas têm nome para ajudar à voracidade das compras. A mãe Natal, de cinturinha de vespa, contrasta com a figura bonacheirona do marido e anuncia todas as prendas possíveis e imaginárias. A Popota, dança, dança, comprem, comprem, comprem. Há presépios pelas ruas, nos recantos das casas. O menino sorri, divinalmente, o burro mordisca a palha, a vaca aquece-o com o seu bafo. Maria sorri, inefável, José vigia. Os pastores depositam as prendas modestas e os reis magos seguem a estrela que parece um cometa. Ergue-se o pinheiro cheio de bolas coloridas e estrelas prateadas. As ruas iluminam-se com arcos, grinaldas, cascatas de lâmpadas. As árvores são cobertas por um manto de luz. Há no ar uma música apaziguadora que ajuda à sensação geral de paz. Tudo se prepara para a consoada. Fazem-se filhoses: coscorões, azevias, sonhos… Prepara-se caldo verde, bacalhau, peru… O presidente serve a ceia aos sem-abrigo.

Num país africano as crianças famintas, de olhos grandes e rostos macilentos, não conseguem sequer erguer um braço esquelético. Nas portas dos States a multidão aguarda que lhe seja permitido o acesso ao sonho americano. Refugiados a pé ou de barco, chegam à fronteira da Europa e suplicam que lhes seja concedida autorização para viver em paz. Multiplicam-se manifestações de intolerância e de xenofobia. Continuam os atentados em nome duma religiosidade medieval.

E se sentássemos todos à mesma mesa, em paz, compartilhando a ceia: a criança faminta, o refugiado, o xenófobo, o terrorista? Ainda que apenas uma noite seria, verdadeiramente, um milagre de Natal!

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