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Cartas de um Torrejano Ilustre ao último Rei de Portugal

A 13 de Dezembro de 1876, nascia no lugar de Pé de Cão, freguesia de Olaia, concelho de Torres Novas, uma das almas mais puras da igreja cristã. Oriundo de uma família humilde, D. Manuel Mendes da Conceição Santos cedo sentiu na sua alma peregrina o chamamento do Senhor. Em Agosto de 1890, com a tenra idade de 14 anos, deu entrada como aluno no Seminário Patriarcal de Santarém. Já nesta altura, D. Manuel Mendes da Conceição destacava-se pelo seu invulgar talento e virtuosa bondade que o acompanhariam até ao final da sua vida. Estas raras qualidades não passaram despercebidas dos seus condiscípulos e mestres, que lhe destinaram, dentro da igreja, o papel de guia e de sábio protector das almas. Durante algum tempo vemo-lo exercer as funções de vice-reitor do Seminário da Guarda. Na diocese egitaniense, o torreja- no ilustre desenvolveria um hercúleo trabalho de difusão da palavra do Senhor. A sua incansável acção de pregador não ficou confinada ao púlpito sacerdotal. D. Manuel Mendes Santos foi responsável pela criação da tipografia “Veritas” e do jornal “A Guarda”. Meios importantes para a divulgação da fé e das virtudes cristãs no seio da comunidade da província da Beira Alta. O nome do prelado torrejano aparece também ligado à criação de associações católicas de piedade e de índole social. Após a edificante acção desenvolvida na cidade da Guarda, D. Manuel Mendes da Conceição torna-se, a 9 de Dezembro de 1915, Bispo de Portalegre. Para no dia 24 de Julho de 1920, ascender ao lugar de Arcebispo da Diocese de Évora. Pela frente abria-se, ao então denominado “Arcebispo Apóstolo”, o enorme desafio de resgatar as almas tresmalhadas dos seus diocesanos. As virtudes sobrenaturais e a contagiante humildade de D. Manuel Mendes da Conceição conseguiriam derrubar a couraça da indiferença do povo alentejano. Os seus ensinamentos e acções tocaram no fundo dos seus corações. Foi também à frente da Dioce- se de Évora que D. Manuel Mendes da Conceição encetou uma extraordinária correspondência epistolar com o último rei de Portugal e Senhor da Casa de Bragança, D. Manuel II (1889-1932). As cartas trocadas evidenciam o encontro de duas almas gémeas irmanadas pelos mesmos ideais e preocupações. Antes de D. Manuel II receber a
primeira missiva do distinto torrejano, a 16 de Junho de 1926, não eram desconhecidas do rei exilado as virtudes e as nobres acções imputadas a D. Manuel Mendes da Conceição Santos. A primeira carta do Arcebispo torrejano ao último rei de Portugal teve como propósito solicitar a cedência do Convento de Chagas, de Vila Viçosa, pertença da Casa Real de Bragança. Com o objectivo de acolher os seminaristas da diocese nos seus tempos das férias. A proposta seria acolhida com entusiasmo por parte de D. Manuel II, que se prontificou a disponibilizar o referido edifício ao seminário de Évora, depois das necessárias reparações. Já que o imóvel encontrava-se em péssimas condições. A generosidade do rei não ficaria apenas por este magnânimo gesto: na qualidade de diocesano do Arcebispo de Évora pergunta-lhe se há mais alguma coisa que possa fazer pela igreja. Estando à inteira disposição do Seu Prelado. Na carta é visível a profunda admiração de D. Manuel II pelo prelado torrejano. O monarca chega a confidenciar que a missiva do Arcebispo foi “um motivo de enorme alegria”. D. Manuel II tece na carta rasgados elogios à notável elevação dos sentimentos do ilustre torrejano e congratula-se de poder, finalmente, “entrar em contacto com um dos mais ilustres Prelados Portugueses, o [Seu] Prelado”. Que, tal como ele, tinha por lema: “ Por Deus e pela Pátria”.
Envolto em inúmeros afazeres e trabalhos o Arcebispo responde ao monarca com um texto parco em linhas. Prometendo ao rei que, quando o tempo assim o permitir, lhe escreverá uma carta longa com as suas meditações sobre as preocupações que os unia. Decorreram alguns meses sem que D. Manuel Mendes da Conceição pudesse escrever a ansiada missiva. Tal veio a acontecer a 15 de Novembro de 1926. Dia do aniversário natalício de D. Manuel II. A epístola, escrita num estilo sóbrio e belo, diagnostica de forma incisiva o mal por que passava o país. Nas reflexões do distinto torrejano há passagens pejadas por uma indescritível actualidade: “(…) Acabo de reler mais uma vez com aquela atenção e aquele respeito que são devidos ao seu nobre signatário, as considerações tão elevadas e tão repassadas de patriotismo que Vossa Majestade se dignou expender na sua carta, e a sós comigo vou dizendo: Como seria diferente a situação em Portugal se todos os portugueses pensassem assim! Sim, meu Senhor, a sua alta inteligência, primorosamente cultivada e esclarecida por uma experiência que, embora de poucos anos, é vastíssima, põe o problema nacional com uma
nitidez admirável. A crise de que estamos sofrendo é profundamente uma crise moral, tem a sua raiz nas inteligências que estão desnorteadas e os corações que estão corrompidos, e só uma força vital, que penetre no domínio das inteligências e dos corações, a poderá debelar eficazmente. Essa força única é a religião, como Vossa Majestade muito bem diz, e é o seu abandono que resulta o abastardamento dos caracteres e enfraquecimento das vontades a que falta energia e coragem para o sacrifício. O regresso pois à prática sincera e integral da religião é condição imprescindível do renascimento nacional, que, por melhores que sejam os nossos desejos, há-de ser uma obra lenta, porque também foi lenta e vem de muito longe a intoxicação que nos conduziu a este descalabro (…). A ascensão é penosa, e muito há que sofrer ainda antes de se chegar às altitudes serenas onde se poderá respirar um ar sadio de paz. Felizes de nós se pudermos dizer que essa ascensão já começou: podemos ao menos saudar a aurora do grande dia da redenção. Quando chegará esse dia? É mistério que não sei desvendar (…). Luto por Deus e pela Pátria, buscando o engrandecimento desta pelo regresso de Deus, tendo diante dos olhos o lema que Vossa Majestade tão elevadamente preconiza. «Deus e Pátria», diz Vossa Majestade, «tem de ser o lema dos Portugueses», e exactamente por Deus e pela Pátria tenho lutado, como posso e como sei, na esfera obscura para onde o meu merecimento me relega. Como Vossa Majestade, também eu desejaria ardentemente que todos os portugueses se unissem na promoção deste ideal e esquecessem tudo o que os pudesse dividir para num esforço unânime o traduzissem em realidade. No dia em que
tal se desse, o problema nacional estaria resolvido (…)”. (“Cartas (1926-1936), Rei D. Manuel II, Rainha D. Amélia, Arcebispo de Évora”, Separata da Revis- ta “Alvoradas”, Évora, 1961,
págs. 11-13).
(Continua)
Texto escrito com a antiga ortografia

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