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A Crise Governamental de 1923 e a sua influência concelhia

O ano de 1923, se no país conduziu a uma nova presidência da República com Manuel Teixeira Gomes a partir de 5 de Outubro, foi também politicamente um ano em que no governo democrático de António Maria da Silva, o ministro das Finanças Portugal Durão tomou medidas legislativas com novos impostos que, procurando diminuir o deficit e valorizar o escudo, criaram da parte do comércio e da indústria reacções profundamente negativas. Dá-nos conta da crise o Almonda (nº217, 16/9), em que, sob o título «De volta da Crise», regista a apresentação dum documento de crítica à política governamental sobre a circulação fiduciária,«assinado pela Associação Comercial de Lisboa, Associação Indus- trial Portuguesa, Associação de Retalho de Víveres de Lisboa, Associação dos Armadores dos Navios de Portugal, Associação Industrial Portuense, Associação Comercial do Porto, Associação da Agricultura, Comércio e Indústria, Centro Comercial do Porto, Associação Comercial Lojistas de Lisboa, Centro Colonial». O poder económico, que enriqueceu com a desvalorização da moeda e a inflacção, durante e depois da guerra, reage às tímidas medidas dum governo que tenta inverter a crise. A queda do Governo é, em Novembro, inevitável. Teixeira Gomes chama o Dr. Afonso Costa, que chega a 6 de Novembro. A sua passagem pelo Entroncamento é relatada no semanário: «À passagem do Sr. Dr. Afonso Costa, na estação do Entroncamento, foram daqui muitos amigos e correligionários, lhe fizeram uma enthusiastica manifestação. Além da Comissão Municipal Centro republicano 5 de Outubro, comissões paroquiais da vila e algumas das freguesias rurais, e da oficialidade do 7º Grupo, compareceram muitos outros admiradores de S. Exª. de que nos foi impossível tomar nota. Esteve também a banda musical das Lapas, que executou o hino nacional. aperto na estação era grande, tendo até por isso o nosso preclaro amigo e assinante, Alfredo do Amaral Cortesão, tido uma ligeira sufocação felizmente passageira», ainda no mesmo periódico, pelo correspondente do Entroncamento, regista-se que «vieram assistir pessoas não só da sede do Concelho, como ainda de outros concelhos limítrofes, e nomeadamente da Barquinha, Abrantes, Sernache do Bonjardim, Golegã, etc. De Abrantes veio um camion com cerca de 40 pessoas chefiadas pelo deputado por este círculo Dr. João Luis Damas, que acompanhou S. Exª. ao comboio. Egualmente veiu um camion de Sernache de Bonjardim, onde entre outras pessoas, vinha o Dr. Abilio Marçal, que seguiu também no Sud Express para Lisboa. A gare estava apinhada de povo, que vitoriou clamorosamente o Sr. Affonso Costa.»(O Almonda nº 225,11/11)

A intenção do candidato a primeiro ministro era o de fazer um governo de unidade nacional, com todos os partidos, mas o Partido Nacionalista tinha outros objectivos e vota contra. Afonso Costa desiste, regressando a Paris. Os católicos criticam o Partido Nacionalista – e o jornal se faz eco – por não ter querido participar no referido governo de unidade nacional. (Idem, nº226, 18/11). O presidente da República cede às pressões dos poderes económicos civis e militares, representados, entre outros, pelos jornais O Século e o Diário de Notícias e convida o partido nacionalista a formar governo, que aceita, nomeando como seu primeiro-ministro António Ginestal Machado, tendo como ministros das Finanças Cunha Leal e da Guerra o general Óscar Fragoso Carmona. Toma posse a 15 de novembro. As reacções locais não se fizeram esperar. O administrador do Concelho, Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida apresenta a sua demissão (Cor. c/ Gov. Civil, nº226, 18/11), assim como o administrador adjunto, José Ferreira Flora e a totalidade dos regedores, do Partido Democrático, entregando provisoriamente o poder à Comissão Administrativa, que nomeia interinamente o nacionalista e vice-presidente, Dr. Luís de Albuquerque, para o cargo. Mas outras manifestações, agora de apoio, surgem, que O Almonda revela: «Causou agradável impressão em Torres Novas a noticia de que fazia parte do ministério, e sobraçando a pasta da Guerra, o senhor general Carmona. Sua Exª é muito conhecido aqui, desde quando aqui esteve comandando a E. E. (Escola de Equitação) de 1918 a 1921, deixando muitas e saudosas recordações pela maneira inteligente e criteriosa, como desempenou aqui o seu lugar. S. Exª tem sido muito cumprimentado. O Almonda julga interpretar o sentir dos torrejanos, cumprimentando também S.Exª.»(Idem, nº227, 25/11). Na semana seguinte, indica a nomeação dos novos regedores, afectos ao Partido Nacionalista, também maioritário no Comissão Administrativa da Câmara Municipal (Idem, nº228,2/12). Mas o governo minoritário, não consegue aprovar o seu programa e cai, a 18 de Dezembro, sendo substituído por um outro, democrático-radical, presidido por Álvaro de Castro (18/12/1923-6/6/1924). Em Dezembro, informa que o Dr. Rafael Duque fora convidado para chefe do gabinete do actual ministro do trabalho, Dr.Lima Duque (idem, nº 231, 23/12). A 28/1/1924, toma posse o industrial riachense Vasco Ferreira, como administrador interino.(A.Posse). 1923 traz consigo outras alterações, materiais e de mentalidade, com influência decisiva no futuro da vila e do concelho. A ele voltaremos.

antoniomario45@gmail.com.
PS – O Texto obedece ao antigo acordo ortográfico.

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