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Desafios da Missão

Inaugurámos no mês de outubro de 2018, o Ano Missionário, num convite feito pelos nossos Bispos. “Ao longo deste Ano Missionário, de outubro de 2018 a outubro de 2019, façamos todos – bispos, padres, diáconos, consagrados e consagradas, adultos, jovens, adolescentes, crianças – a experiência da missão. Sair. Irmos até uma outra paróquia, uma outra diocese, um outro país em missão, para sentirmos que somos chamados por vocação a sermos universais”, desafia na Nota Pastoral “Todos, Tudo e Sempre em Missão” a Conferência Episcopal Portuguesa. Ao visitar a Casa de São José de Cluny, e porque esta Congregação também é de carisma missionário, falámos com a Irmã Tânia, precisamente acerca de Missão. Da mesma Missão a que o Ano Missionário nos desafia: evangelizar. Em toda a sua simpatia e de sorriso rasgado, a Irmã Tânia aceitou o nosso desafio e partilhou aquela que é também a sua experiência de consagrada e missionária.

O Almonda: Que desafios pessoais lhe lança este ano missionário?

Irmã Tânia: O primeiro e grande desafio é deixar transparecer o dom de Deus no concreto da minha vida. Este persistir e alimentar, diariamente, a relação pessoal com Ele para que o encontro na relação familiar, no trabalho, na ação pastoral e nos mais diversos contextos seja fecundo, de louvor, gratidão, de ação de graças por tudo o que de graça recebo. Quando verdadeiramente apaixonados por Alguém os nossos lábios falam da abundância do coração, como tal, esse é um grande desafio: este deixar-me deslumbrar, fascinar, surpreender e encontrar por Jesus… Quando assim é a linguagem mais apropriada do anúncio, do testemunho é o bendizer, o
louvor, a alegria, o entusiasmo, a ousadia, o perdão, de que tanto nos fala o Santo Padre. Nesta sequência sinto-me desafiada a fazer da minha existência uma missão de encontro, de abertura à novidade e “de saída destemida de mim mesma” num acertar passo com a Vontade de Deus. Sinto em mim o desafio de abrandar o ritmo do muito fazer para investir mais e melhor no ser, acolher, estar, acompanhar, escutar.

O Almonda: Fale-nos da sua experiência de missionária.

Irmã Tânia: Entendendo a missão como o encontro com Alguém que muda a nossa vida, gera entusiasmo, alegria, doação de si mesmo, com tudo o que de belo e adverso no dia a dia se apresente, posso dizer que a minha experiência missionária se iniciou no ventre de minha mãe. O seu encontro amigo e assíduo com Aquele que a ama, o balbuciar do Seu nome ao longo do dia quando confrontada com situações dolorosas e por vezes de impotência, fez-me sentir, desde cedo, que a vida dependente Naquele que tudo pode tem sentido e sabor e, como tal, não pode ficar encerrada na própria pessoa. Desde cedo e fruto do testemunho familiar valores como a verdade, o respeito, a partilha, a generosidade, a escuta, o perdão, estiveram solidamente assentes na construção da minha casa. Daí que experiências como tempos de oração em família, participação na Eucaristia, visitar pessoas doentes, escutá-las, partilhar do nosso pão, do nosso tempo, implicar-me na vida da paróquia como leitora, catequista, escuteira, foram começos fecundos em missão. Tudo isto foi trampolim para mais tarde, enquanto jovem, fazer voluntariado, no mês das férias, em Roma, aquando do Jubileu do ano 2000, no encontro das Jornadas Mundiais da Juventude, bem como, campos de férias com voluntariado missionário e ainda, no mês de férias, fazer uma experiência missionária na Guiné Bissau. Estes “tempos” privilegiados em que pomos a render e desenvolvemos novas competências abrem-nos para outras realidades, nomeadamente, no meu caso, o ter equacionado e enveredado para a vida religiosa, num dom total da minha vida a Jesus, ao serviço dos mais pequeninos. O testemunho de uma vida partilhada com paixão, entusiasmo e alegria tem uma força contagiante, de tal ordem que desperta, no mais íntimo de nós, aquela semente de serviço e doação total. Deus continua a servir-se de todos os acontecimentos, experiências, encontros e desencontros para escrever, na vida de cada um de nós, a mais bela história da nossa vocação pessoal. É curioso que se abertos e despertos no campo onde nos encontramos em missão, percebemos e sentimos como as pessoas que connosco estão nos evangelizam e ensinam a viver a nossa dimensão do ser missão, do ser testemunhas de Cristo manso, humilde e simples de coração. Gestos, palavras, expressões, presenças que estão ao nosso alcance e que nos interpelam no como recuperar a nossa disponibilidade, como viver na insegurança, como apreender a simplicidade de vida, a espontaneidade da oração, como fazer da vida uma oração numa atitude de amar servindo e servindo a amar.

O Almonda: Por que razão escolheu, no seio da sua vocação, a Congregação de São José de Cluny?

Irmã Tânia: O dinamismo, a alegria contagiante, o entusiasmo, a confiança, determinação e espírito de fé patente numa jovem de aldeia, que em criança surpreende pela sua capacidade de liderar e em jovem pela sua audácia em rasgar mares e querer estar em toda a parte onde houvesse bem a fazer, sofrimento a aliviar e Homens a libertar, devolvendo a sua dignidade de Filhos, Queridos, Amados e Perdoados por Deus, foi este o grande motivo que me levou a abraçar o Carisma da Congregação Missionária das Irmãs de S. José de Cluny. Quando comecei a ler a sua vida também eu gostaria de ser como Ana Maria Javouhey. Alguém sensível àqueles que não tinham voz e assim considerados os filhos de ninguém. Alguém que traz gravado como selo no coração a identidade e pertença a um Amor maior e que não tem medo de se dar TODA, de ARRISCAR TUDO, porque Ele assim fez por nós. E por Amor! Só por Amor! Alguém que não se deixou abafar/calar pelas “multidões do seu tempo”, tal como nos relatos que escutamos de muitos episódios da vida daqueles que se deixaram transformar por Jesus. Alguém que num contexto de guerra, de perseguições, martírios, fome, doenças soube semear Esperança, Confiança, Amor. Alguém que manteve acesa a fé, alimentou com o Pão vivo, desatou liberdades silenciadas, corações atados e doridos, olhos vendados e doentes. Mesmo assim… Porquê São José de Cluny? Bem! Porque Deus assim o quis!

O Almonda: Na sua opinião, de que forma, podem os leigos ser também mais missionários neste ano em especial?

Irmã Tânia: Os leigos têm sido testemunho de homens e mulheres que cada vez mais procuram estar presentes no mundo e não serem apenas de Igreja. É importante que continuem a ser quem são no contexto onde se encontram inseridos. Ser eu mesmo, seguro e conhecedor da minha identidade cristã, dos valores e motivações que me animam no dia a dia. Ter inscrito no coração e na palma da mão a quem pertenço, por que ventos me deixo levar e que brisas me fazem ponderar. Ser eu mesmo livre, consciente e apaixonado por Aquele que por mim deu tudo e por Ele, que estou eu disposto a dar? Ser eu mesmo na realidade secular, no seio da minha família, no meu local de trabalho, no autocarro/metro, na fila de trânsito, nos mais variados ambientes. Ser eu mesmo consciente do meu potencial e limites e não obstante discípulo missionário que reconhece no seu Mestre a força para recomeçar e a possibilidade de ser “Sal e Luz no mundo”. Um testemunho que contagia e atrai, renova a resposta de quem perdeu algo e quer voltar a ser presença, resposta válida no mundo.

Célia Ramos

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