Solidão

No meio do acontecimento notável que foi a comemora- ção dos cem anos de “O Almonda”, um pormenor que talvez ninguém ou muito poucos notaram, foi ver o Padre Durval, autor e programador deste acontecimento notável, isolado ora num canto ora no outro da grande sala. De facto ele foi nomeado em algumas das intervenções, mas por moto próprio ou por imposição, ele escondeu-se e eu observei a sua tristeza no meio de tantos discursos e gestos festivos. Para além de tudo o que pudesse envolver esse sacerdote durante este ano como diretor, parece-me profundamente injusto, quer ele quisesse quer não, não ter ocupado a mesa da presidência. Eu que nunca fora ter com ele durante o seu cargo de diretor, desta vez, quebrei tudo aquilo que pudesse haver duma certa indiferença, para ir falar com ele, relatando-lhe algumas peripécias da minha vida que ele com um sorriso (que eu durante a cerimónia não lhe tinha visto) ouviu atentamente. Notei nele uma certa mágoa, não sei de quê, ou por outra cuidando perceber as causas do seu rosto fechado. Depois de falar com ele compreendi que na Igreja não devemos estar à espera de reconhecimento pelo trabalho feito como padre porque como diz o ditado: “bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”. Aqueles que me lerem podem ter a certeza que não falo de cor. Faz-me lembrar um romance que li sobre a Igreja de Roma e sobre o Papa. Num século que ainda há de vir, foi nomeado um Papa que, como Francisco, quis regressar ao Evangelho e mal foi eleito, na Praça de S. Pedro, despiu-se das vestes pontificais e em voz poderosa proclamou: “Quem me quiser seguir, venha comigo para S. João de Latrão porque lá é que é a Sé de Roma e do Papa como bispo desta cidade. Com o Evangelho na alma e no coração, sejamos, com todos os nossos irmãos as testemunhas fiéis de Cristo”. Bem sei que isto é romance mas que talvez possa levar aquelas dezenas de pessoas que estavam nas comemora- ções a pensar que se elas quisessem o jornal “Almonda” não teria dificuldades econó- micas e que não são só os homens da Igreja que têm responsabilidades para com os fiéis mas todos em uníssono fazem a Igreja de Cristo.

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