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Um pseudónimo desconhecido de Maria Lamas

A revista “ Modas & Bordados (1912-1977) foi uma das grandes referências da imprensa periódica feminina no século anterior. Ao longo dos seus 64 anos de existência o magazine assumiu-se como uma grande escola de virtudes e de aprendizagem. Os temas abordados, pelo então suplemento do jornal “O Século”, eram bastante sugestivos e diversificados. Iam desde os simples esclarecimentos práticos, ligados ao lar, até aos assuntos dedicados ao espírito. Neste capítulo, a revista oferecia às suas leitoras textos de natureza cultural e artística, que procuravam dotar a mulher portuguesa de uma maior consciência sobre o seu papel na sociedade moderna.

Para a consolidação da linha editorial porque hoje é conhecido o “Modas e Bordados” muito contribuiu o inconfundível e arrojado espírito da torrejana Maria Lamas (18931983). A sua chegada ao cargo de directora do magazine aconteceria em Abril de 1929, a convite do escritor Ferreira de Castro (1898-1974). Anos mais tarde, a torrejana ilustre afirmaria: “[que] não [foi contratada] como redactora [do magazine]. [Foi] como salvadora.” (“ A Palavra a Maria Lamas”, in “ Mulher. Moda & Bordados, nº3321, 8 de Outubro de 1975, pág. 2).

Esta confissão de Maria Lamas traduz de forma inequívoca a grave crise que afectava o “Modas & Bordados”, o que a levou a assumir a responsabilidade de “ressuscitar” a revista, abrindo-a a novos temas e a novos desafios. A sua principal preocupação estava centrada na formação e na emancipação da mulher. Também os mais jovens não foram esquecidos pela escritora torrejana. No ano de 1936, Maria Lamas fundava a revista infantil “Joaninha”, como suplemento autónomo do “Modas e Bordados”.

Na tarefa de reerguer a revista, a torrejana ilustre fez-se rodear por uma plêiade de colaboradoras de reconhecido valor intelectual. Que com os seus textos e intervenções ajudaram a formar o gosto e a mentalidade das mulheres portuguesas. A própria Maria Lamas, através dos seus artigos sobre literatura, sociologia, cultura, viagens, vida feminina…, contribuiria para o sucesso da revista. Muitos dos textos da autora torrejana foram escritos debaixo
de um pseudónimo. Como foi o caso da “Tia Filomena” que, semanalmente, respondia às preocupações e aos problemas das suas leitoras, com o intuito de as “orientar, esclarecer e ajudar nas várias circunstâncias da vida”. A revolução provocada pela rubrica na mentalidade feminina não passou despercebida à polícia política do Estado Novo (PIDE), que chegou a tentar, junto de Maria Lamas, “saber quem era a Tia Filomena”. (“ A Palavra a Maria Lamas”, in “ Mulher. Moda & Bordados, nº 3321, 8 de Outubro de 1975).

Mas este pseudónimo não foi o único adoptado pela escritora torrejana no “Modas & Bordados”. Nas folhas do magazine, Maria Lamas publicaria contos e poemas debaixo do conhecido pseudónimo Rosa Silvestre. O mesmo sucederia com o romance “O Relicário Perdido”. Publicado em folhetim no suplemento “Joaninha”, entre Fevereiro de 1936 e Maio de 1937.

Segundo a investigadora Maria Alice Guimarães é bem provável que “a tia Lena que, num estilo epistolar, respondia à sobrinha, Maria Saudade, dando notícias de ordem social e cultural de eventos realizados na capital, numa rubrica sugestivamente intitulada “ Cartas de uma Lisboeta”, seja um pseudónimo de Maria Lamas (Saberes, Modas & Pó-de-Arroz, 2008). Outro desafio colocado pela investigadora tem a ver com a dificuldade em identificar quem está por detrás do pseudónimo “Vera”, que passaria a assinar a rubrica “ Estante da Mulher”. Inicialmente da responsabilidade de Maria Lamas (op. cit., pág. 75). Se a filiação do pseudónimo “Tia Lena” à autora torrejana pode suscitar algumas dúvidas, já o de “Vera D’Arge” afigura-se consensual. O próprio neto da torrejana ilustre, na sua obra “ Maria Lamas – mulher de causas” Gráfica Almondina, 2017, pág. 29), integra o referido pseudónimo na multifacetada obra plural da escritora. É possível encontrar nas pequenas obras escritas sob o referido pseudónimo alguns temas caros a Maria Lamas. Principalmente no seu romance “Uma Rapariga Moderna”, publicado em folhetim no suplemento “Joaninha”, de 20 de maio a 20 de Outubro de 1937. Há traços de personalidade que unem a Irene do romance “Uma Rapariga Moderna” (1937) à Marta do livro “Para Além do Amor” (1935). As duas heroínas vão ter que lutar pela sua afirmação pessoal num meio hostil. Dominado pelo preconceito e pela secundarização do papel da mulher. Só pela força e inteligência é que as duas mulheres conseguem ultrapassar os obstáculos. O desenlace final das duas obras é bastante semelhante: tanto Marta como Irene vão centrar a sua acção na melhoria das condições de vida dos operários das suas fábricas.

A segunda obra, publicada por Maria Lamas, sob o pseudónimo Vera D’Arge, apresenta o título “ O poema da Primavera” (“Joaninha”,1937). Aqui, a mulher é apresentada com a roupagem de uma inveterada sonhadora que procura seguir os seus sentimentos e idealizações. Carlota, a personagem principal do romance, na sua viagem para o Porto com a sua ama tem um imprevisto. O carro que conduzia avaria-se. As duas infortunadas mulheres são socorridas por um desconhecido, grosseiramente vestido, que as convida a passarem a noite na nobre quinta em que vivia na companhia da mãe, a Condessa do Souto. A jovem Carlota é atraída pelos modos delicados do jovem Filipe. O passeio ao luar desperta na sua mente um sentimento amoroso por aquele jovem atento às coisas belas que o rodeiam. Muito diferente do seu pretendente, o Dr. Alberto Sampaio.

Depois de ouvir Filipe tocar ao piano “ O Poema da Primavera”, Carlota toma a decisão de romper o compromisso de casamento que o pai lhe destinara. O seu espírito delicado e sonhador não se conjugava com o futuro esposo, o austero advogado, Dr. Alberto Sampaio. Na viagem para o Porto, é Filipe que conduz o carro. Na cidade nortenha espera-as o pai e o Dr. Alberto Sampaio. Ao chegar, Carlota fica surpreendida pelo factos de os dois jovens serem velhos amigos. O seu espanto é maior quando descobre que o autor da partitura “ O Poema da Primavera” é de Alberto Sampaio. O que a leva a reconciliar a sua afeição e amor pelo futuro esposo.

O último romance “ A Felicidade Existe…” de Vera D’Arge, no “Modas & Bordados”, é constituído por apenas vinte páginas. O tema analisa a forma como os preconceitos sociais alteram a nossa forma de relacionarmos com as pessoas. A personagem principal da história, o médico Carlos traz para sua casa um bebé. Esconde à própria esposa a origem do infeliz rebento. O casal passa a ser visado pelos olhares e atitudes acusatórias das pessoas no seu meio social. Julgam que aquela criança é fruto de um amor ilícito de Carlos. Por esse motivo os pacientes recusam-se a serem consultados pelo médico. À medida que o tempo passa a opressão inquisitiva do meio social é cada maior. Clara, mulher de Carlos, é o espelho da resistência. Em vez de rejeitar a criança desenvolve por ela um forte amor filial. Com a chegada do amigo de Carlos o mistério é deslindado: João é filho do Dr. Tavares, que o confiara ao amigo Carlos, durante os tempos em que esteve preso, por causa de um roubo de que fora falsamente acusado. Os habitantes da terra ao tomarem conhecimento da nobre atitude de Carlos desdobram-se em manifestações de regozijo e de elogio. A clientela do Dr. Carlos volta a aumentar de número. A felicidade do casal fora posta à prova, e só conseguiu vencer pelo forte amor que os unia. Como podemos depreender, os romances de Maria Lamas, nas páginas do “Modas & Bordados”, tinham como objectivo principal “fazer da mulher um ser que [soubesse] pensar, sentir e agir revelando assim, toda a sua beleza interior”.

Texto escrito com a antiga ortografia.

Nota: Por engano, no artigo anterior “ As Primeiras Notícias Desportivas…”, onde se lê: “ A instalação, em 1902, da Escola de Equitação, depois Escola Prática de Cavalaria…”, deve ler-se: “ A instalação, em 1902, da Escola Prática de Cavalaria, depois Escola de Equitação”. O erro resultou da nossa confiança na passagem do livro “ Cem anos de Futebol em Torres Novas”, pág. 21, que mantém a primeira indicação. Não questionámos a passagem referida (que nos deixou surpreendido) porque a nota da referida página do livro “Cem anos de Futebol…”, remetia para a obra de Artur Gonçalves “Anais Torrejanos”, páginas 153-154. Consultada a passagem, vemos que Artur Gonçalves apenas refere a fundação da Escola Prática da Cavalaria, em 1902 (e não Escola de Equitação!).As várias alterações porque passou o nome da instituição militar torrejana estão, sim, presentes no livro de Artur Gonçalves “Mosaico Torrejano”, pág. 163.

 

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