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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

100 anos de História

Por: Drª. Telma Gomes

Perdoem-me, caros leitores, hoje a crónica não é veterinária. O nosso jornal comemora 100 anos de existência, 100 anos de História.

Foi um jantar em casa do meu padrinho: falávamos e recordávamos a avó Maria. Desconhecia, mas, nesse dia, soube que a minha avó, todos os domingos, sentava-se, depois de almoço, na mesa redonda da acolhedora cozinha e lia as novidades da nossa terra. Talvez não fosse tanto pelo conteúdo. Talvez não fosse tanto pelo interesse da notícia. Talvez não fosse tanto pela estética do jornal. Talvez, fosse, simplesmente, uma forma de se manter ligada, através daquelas páginas, às gentes que até podia nem conhecer, aos eventos a que até podia nem comparecer, mas que tornavam aquela terra “sua”, que constituíam a identidade do local que ia conhecendo. Nesse dia, em casa do meu padrinho, a minha responsabilidade e, perdoem-me a falta de modéstia, o orgulho em colaborar nestas páginas cresceu. De algum modo, não obstante a mudança de visual do jornal, não obstante a mudança do tipo de letra, não obstante a mudança de colaboradores, não obstante a modernização da maquinaria que escreve estas letras, havia um fio invisível que me ligava à minha avó. A avó que tinha a letra mais bem desenhada que conheci. A avó heroína, que vivia num local ermo, que criou seis filhos, tantas vezes em condições precárias, a avó que ensinou tantas histórias aos netos, que mostrou o calor do carinho e de bem receber as pessoas. A avó que me ensinou a dizer “veterinária”. A avó que, naquele dia, enquanto passávamos no corredor de hera, me corrigiu, com o amor a que sempre nos habituou: “não é veternária, é veterinária”. Foi nesse dia que aprendi a dizer corretamente a palavra que iria repetir ao longo de toda a minha vida, com todo o amor. A avó que, depois de uma longa e dura semana, se permitia descansar, sentar na quente mesa daquela cozinha, onde tantas vezes me preparou almoços, e lia o jornal. Quantas “avós” podemos nós ter que, ao longo destes 100 anos, folhearam as páginas deste jornal? Quanta História por aqui passou? Quantos fios invisíveis nos ligam a todos, leitores deste jornal? É a todos nós que cabe manter estas memórias vivas. Hoje, sentada enquanto escrevo este artigo, o meu coração conforta-se. Penso no que poderia a minha avó sentir ao ler-me. Enquanto escrevo este artigo, penso nas avós e avôs de todos os meus contemporâneos, que todos os dias fazem aquela que será a História do futuro. Penso naqueles que, um dia, poderão pegar n’O Almonda, independentemente do seu aspeto, e, assim ligar-se à História. Todos somos responsáveis, por manter vivo este título, este jornal e, um dia mais tarde, termos alguém que se recorda de nós, nem que seja por, ao Domingo, nos sentarmos, por um instante, a ler o jornal.

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