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Polémicas em torno do Jornal “O Almonda”

Tanto mais que não vejo o menor p’rigo em dizer alto e claro aqui quem sou. Faustino Bretes – pois é o amigo que a arrepiar caminho te exortou.
A dor que me pungiu o coração ao ver-te no “Almonda” escrever foi o que me levou à decisão do meu brado amigo há pouco erguer.
Pois podia o José Lopes dos Santos, o lutador enérgico de outrora olvidar os seus princípios sacrossantos para fazer o que tem feito agora?
Teria ele também olvidado, revelando-se assim um esquecido de que fora, por certo tonsurado nessas mesmas colunas ofendido?
E em turbilhão isto ia dentro de mim num misto de revolta e tristeza!… tendo partido, então, daqui assim o grito meu, um tanto de crueza.
Mas que eu tinha razão tudo o confessa num tom de que da verdade tenho o cunho. e até a tua carta, mesmo essa, é disso precioso testemunho.
Reconsidera, pois o acto praticado (o qual muito lamento haveres consumado) sê hoje como foste em tempos para a ideia que o peito meu abrasa e incendeia e tu granjearás, decerto a admiração de quantos sabem ter por único brasão este título honroso e altamente nobre: ser coerente e digno, embora sendo pobre.
Portanto é imensamente feio, amigo, para ti colaborares mais nessa folha de aí aonde é arguido o embuste e calcada a Verdade se exalta o preconceito e ataca a Liberdade.
Faustino Bretes (29/01/1932)

 

Mas numa determinada fase das suas vidas os dois ilustres torrejanos enveredariam por rumos políticos diferentes. Na década de trinta, do século anterior, José Lopes dos Santos dava início à sua tímida aproximação ao regime do Estado Novo. O passado republicano de José Lopes dos Santos e a ligação à maçonaria local (Loja Regeneração 20 de Abril) não lhe pesaram na decisão de se tornar num dos mais assíduos colaboradores do jornal “O Almonda”. Que nesta altura era superiormente dirigido pelo Dr. Carlos de Azevedo Mendes. Figura grada do regime vigente e apoiante incondicional do Estado Novo. Aos olhos de Faustino Bretes a colaboração de José Lopes dos Santos, nas folhas de “O Almonda”, representavam uma “traição” aos ideais republicanos que os unira em lutas passadas. Desiludido com a atitude do amigo, exorta-o a arrepiar caminho. A solicitação, feita por Faustino Bretes, esbarra na intransigência do seu companheiro de letras e das batalhas ideológicas. Que numa carta em verso reitera a sua firme convicção de não desistir de colaborar no jornal “O Almonda”. Face à inamovível posição de José Lopes dos Santos, Faustino Bretes endereça-lhe um último apelo. A resposta tem a particularidade de também estar escrita em verso. Domínio em que os ilustres torrejanos se revelaram exímios versejadores:
“(…) Para que tu não julgues que receio O meu modesto nome declinar, eis te declaro já e sem rodeio que o anónimo encanto vou quebrar. 

A traição de José Lopes dos Santos acarretaria o natural esfriar da relação de amizade entre os dois velhos companheiros de lutas políticas. Com o passar dos tempos as divergências que afastaram os ilustres torrejanos acabariam por se esbater. A pretérita crítica de Faustino Bretes ao amigo daria lugar, alguns anos depois, ao rasgado elogio: em 1960 é publicado, nas páginas do jornal “O Almonda”, um poema da sua autoria dedicado a José Lopes dos Santos. Versos em que o ilustre poeta torrejano traça de forma eloquente o apego do amigo “À luz de ideais da máxima grandeza” (“0 Almonda”, Nº 2128, 16 de Abril de 1960, pág. 6). Indo ao arrepio da acusação feita a José Lopes dos Santos na década de trinta. A mudança de opinião de Faustino Bretes não ficaria por aqui. Nas folhas do jornal – que tão veemente criticara – o poeta e investigador torrejano encetaria uma profícua colaboração sobre temas da História torrejana. Com a análise desta inédita polémica torrejana, chegámos ao fim do artigo. Como corolário fica-nos a lição de que, por vezes, os factores ideológicos conseguem ensombrar a independência e a verdade das notícias. O “Almonda”, como vimos, não escapou, ao longo da sua centenária história, a alguns inevitáveis percalços. Que não diminuem a enorme importância do semanário regional na formação e informação dos seus conterrâneos. Pois, desde o seu início, o jornal “O Almonda” teve a virtude de inscrever nas suas páginas o pulsar das esperanças e a vida das populações do concelho.

Texto escrito com a antiga grafia

 

 

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