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Conselhos

Não há nada a que os homens sejam mais propícios do que em dar conselhos. E quando a razão lhes falta costumam acrescentar às suas opiniões a força, o ferro e o fogo. É lastimável estarmos em situações onde a quantidade de conselheiros seja maior que os ouvintes. É coisa difícil estabelecer o nosso julgamento contrariando as nossas próprias ilusões. A convicção dos conselhos comuns nem sempre diz a verdade. Quanto a mim, sem pensar, dou conselhos que não pratico. Vivemos num mundo marcado por ruídos externos e internos. Carregamos os ruídos dentro de nós. No nosso corpo sentimos tensões. Na nossa mente: falatórios. Na nossa afetividade: angústias. Também os nossos conselhos seguem o ritmo das confusões da nossa mente e das perturbações da nossa afetividade. Acontece, normalmente, que os conselhos nem sempre têm uma ordem lógica e se realmente fossem uma pérola da verdade, a primeira atitude que tomaríamos seria a de escutá-los. E assim nos empreendemos, pela extensão do nosso subjetivismo em não escutar, mas em dar conselhos sobre coisas que não sabemos solucionar. Um discernimento em clima de escuta. De comunicação de vida profunda. De reflexão intensa e constante. De diálogo sincero consigo e o outro. Esse é o clima para um conselho certo. Mas, a resposta das questões que emitimos opiniões, nem sempre são soluções de problemas porque o clima das nossas opiniões não está na reflexão, mas no interesse pessoal. De resto, eu diria que o sábio é quem mais merece crédito em matéria de conselho. E este deve ser acreditado apenas em parte. E esta deve ser medida pela extensão da experiência do conselheiro na matéria aconselhada. Esse privilégio de aconselhar, que aprovo somente aos sábios, não se deve ceder a quem o quiser. Muitas vezes – aconselhar – não é outra coisa senão o registo das projeções de nossa própria vontade. Meus ouvidos, constantemente, são azucrinados por conselheiros que certamente não acreditam nos seus próprios conselhos. Neste caso, ao avaliar conselhos e conselheiros, concordo com Descartes, que nas coisas de difícil comprovação, mais se valia pela dúvida do que pela certeza. E na dúvida, já dizia Santo Agostinho, mais vale é imitar as grandes almas do que se aconselhar com os amigos. Durval Baranowske

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