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Jardinagem e Terceira Idade

Grande ou pequeno, um jardim ou uma horta constituem uma fonte permanente de vigor e serenidade. Desafiam e confortam, aprovisionando-nos ao mesmo tempo de paz e prazer. Assim, não é de surpreender que, segundo a Bíblia, a Criação tenha começado num jardim. Nós também temos um, muito menos extenso e muitíssimo mais casual do que o do Genesis, mas nem por isso é menor o nosso apreço por ele. Ali colhemos flores para alindar a casa, jalapenhos e ervas aromáticas para dar um toque de “je ne sais quoi” à comida de todos os dias. Quando faz sol, gostamos de ler e tomar as refeições à sombra das suas árvores. É um lugar onde nos sentimos felizes. Assim, tratar do jardim não é um fardo, mas sim uma obrigação agradável. Nas últimas semanas, as folhas do ácer gigantesco cobriram o chão com um tapete cor de fogo. Maravilhamo-nos com o espectáculo mas, antes da acumulação de neve, somos forçados a varrer as folhas e colocá-las em grandes sacos de papel que o município vem buscar para as metamorfosear em composto. É aqui que surge o problema existencial do “jardineiro”: quanto melhor se torna, mais exigente fica. Se não tiver cuidado, acaba dominado pela “escravatura” da jardinagem. É o que tem sucedido com crescente regularidade a alguns amigos. Um deles, proprietário de um lote que ocupa um espaço acima da média, comunicou que ia construir uma garagem maior e ampliar a casa para reduzir o tamanho do jardim. Durante quase cinquenta anos, cuidou de tudo com o maior esmero. Foi a sua alegria e o seu porto de refúgio, porém, com o avançar da idade, e apesar de ter aumentado o tempo livre, a energia não é a mesma. O jardim tornou-se o seu senhor. Havia sempre algo para fazer: outro canteiro, uma extensão da sebe, mais plantações, uma nova ideia, etc.. O que havia sido um passatempo agradável tinha-se transformado, na reforma, em uma ocupação exigente e a tempo inteiro. As folhas caíram, os dias são mais curtos e o inverno não tarda a chegar.

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