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Uma bica cheia

Sempre achei o máximo a variedade de formas que temos para pedir um simples café. Não tem importância nenhuma, evidentemente, mas, a meu ver, revela uma enorme capacidade inventiva, uma estranha imaginação do povo Português. Também poderemos pensar que é uma característica do nosso individualismo ou, numa visão pessimista, a mania que temos em complicar tudo mesmo aquilo que é simples. Os Espanhóis têm o café solo ou con leche; os ingleses o black coffee; os Italianos o cappuccino; os Franceses o Café turc; os Irlandeses o Irish Coffee… Nós, para uma chávena de escassos 50 mililitros quase que conseguimos personalizar o café que pedimos. Começa na forma de o pedir: um cimbalino, à moda do Porto; uma bica, à moda de Lisboa; um café, no resto do país. Depois na própria chávena que pode ser dupla, escaldada, fria …. Finalmente no café propriamente dito! Pode ser uma bica italiana, um café duplo, um garoto, um carioca, uma bica pingada, um café sem princípio, um abatanado, um pouco mais que meio, abaixo de metade, um pouco menos que cheio, a bordar…. E são permitidas conjugações, por exemplo: uma bica pingada em chávena dupla escaldada; uma italiana em chávena fria; um cimbalino duplo sem princípio… E o mais estranho disto tudo é que ainda há quem peça um café normal que, entre todas as outras opções, será certamente o mais difícil de tirar! Conta-se até aquela estória do cliente que pediu uma bica Italiana mas o empregado trouxe uma chávena com tão pouco café que o cliente lhe disse: eu pedi uma Italiana mas creio que se esqueceu de lavar a chávena. Para mim, porventura por alguma falta de imaginação, talvez por reminiscência do meu pai, num café de Lisboa que agora é um banco, ou pela minha adolescência alfacinha é sempre: se faz favor uma bica cheia.

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