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Partidos e Grupos Sociais Activos no Concelho 1923

Se, a nível nacional, o ano de 1923 assiste a um governo democrático de António Maria da Silva (7/12/1922-15/11/1923), a nível concelhia inicia o novo mandato a Câmara Municipal de Torres Novas, cujos dois órgãos principais são presididos pelas duas forças políticas com mais impacto concelhio: a união liberal-católica, muito forte nas zonas rurais, que elege maioritariamente o Senado e a Comissão Executiva; e o partido democrático, com sede e influência nas freguesias urbanas da vila (Salvador, Santa Maria, Santiago, com excepção da de S Pedro, e nas rurais de Lapas, Ribeira e Pedrógão). DaÍ que, por compromisso, o partido republicano fique em minoria na Comissão Executiva, com um único vereador, o comerciante José António Júnior, mas mantendo a presidência do Senado Municipal, cargo, desde 1919, ocupado pelo Dr. Augusto Lopes Mendes e Silva. Tais medidas de cedência às forças conservadoras, monárquicas e católicas, características dos governos do eng. António Maria da Silva, conduzem ao aparecimento, à direita e à esquerda, de novas forças políticas. À direita, com o partido republicano nacionalista, tendo como figuras principais Cunha Leal e Álvaro de Castro. E à esquerda, saído do Outubrismo, o Partido Radical, que evoluirá em 1925 para o da Esquerda Democrática, de José Domingos dos Santos.

Em Torres Novas, as principais figuras que iriam constituir o Partido Republicano Nacionalista intentam reunir-se para organização concelhia do mesmo no Centro Republicano 5 Outubro, com a cedência da direcçao do mesmo, mas que leva a grande crispação interna entre os sócios, a ponto de se dar uma cisão, a partir dos mais radicais, ficando o centro como fiel do partido democrático no governo (O Almonda nº191, 18/3). Um dos grupos que abandona o Centro Republicano é o Grupo Musical Torrejano, dirigido por Manuel Antunes dos Santos. Mesmo assim o Partido Nacio- nalista organiza-se, participa no Congresso, em Lisboa, fica presidido pelo Dr. João Martins de Azevedo, e tem como figuras catalisadoras representativas no Congresso, o Dr. Rafael Duque, José Manuel Rodrigues e Luís de Albuquerque (Idem, nº.192, 25/3).A divisão republicana vai-se verificar-se em redor da figura política que dirige a administração concelhia, como representante do governo civil e que recai, desde 20/7/1922, no bacharel António Pinto de Almeida (Autos de Posse). Localmente, entra em conflito com o provedor da Misericórdia, Dr. Carlos de Azevedo Mendes, ao não sancionar e apresentar queixa pública, pela substituição do pessoal enfermeiro do hospital da misericórdia, por irmãs de caridade (Lº1556,Correp. Ad. Conc.nº89,1/3/1923; nº316; nº355, nº443 (28/8). É ainda aquele que preside nesse ano, à Comissão Administrativa dos bens da Igreja do Concelho, tendo como tesoureiro o Bacharel Augusto Lopes Mendes e Silva e secretário Manuel Antunes dos Santos, sendo obrigatoriamente membro da mesma o chefe de repartição de finanças, na altura o Sr. Filipe Augusto Ribeiro. (Corresp, Ad.Conc., nº12-10/3/1923). Pelas suas mãos passam, segundo a legislação governamental, as autorizações das procissões nas freguesias, que aprova na generalidade dos pedidos, excepto na vila, onde as proíbe. (Corresp. Nº67,5/9/1923). Acontecimento marcante administrativo do ano é a criação da freguesia civil de Riachos, separando parte da que era até então a freguesia de S. Tiago. (Cor. Adm., nº69,5/9/1923), pela lei nº1470, de 28 de Agosto, D. Gov. nº185, 1ª série, sendo nomeado provisoriamente como regedor daquela, José de Sousa Barroso. Observemos, agora, O Almonda. A partir do nº 181, datado de7/1/1923, apresenta, novo cabeçalho, um novo editor Manuel Jacinto de Oliveira. Um tema que não nos aparece na documentação local, por não pertencer aos interesses dos grupos sociais detentores do poder concelhio, é o da organização do sector operário. Sabendo-se que neste, ainda que sem organizações de classe legalmente organizadas, se divulgam no sector operário as ideias do Partido Comunista Português e do sector anar

Macedo quista, com mais influencia para este segundo, devido à intervenção do segeiro Faustino Bretes, correspondente do jornal diário anarco-sindicalista A Batalha, e fundador, neste ano, em Torres Novas, do grupo anarquista revolucionário Luz e Liberdade, de que era secretário, e de que faziam parte José dos Santos Ferreira, Joaquim Vicente Pedroso, José Macedo e José Simões, reuniam na barbearia deste último. Também é certo que o sector operário torrejano ganhou força para organizar o desfile e manifestação do 1º de Maio nesse ano, onde se destacam, na cabeça da manifestação (vide Fotorafia), da esquerda para a direita, Aníbal Alves, pedreiro; Manuel Grego, tanoeiro, depois ferroviário; Luís Umbelino e António Alves, pedreiros; Carlos Manuel Sepodes, serralheiro; Baltasar Gameiro, torneiro mecânico, e Vicente Pereira, vulgo Vicente Virola, manufactor do calçado; em 2º plano João Ferreira Gomes, correeiro e José de Oliveira Coelho, maleiro…» (Santos, A.Mário, Torres Novas na 1ª República, p.289; Torres Novas Ontem-Fotografias, VIII Centenário Foral de Torres Novas)) . Realizara-se em simultâneo um almoço de confraternização do grupo de operários, ligados à Acção Católica e à Banda Operária Torrejana, recentemente reorganizada, cuja comissão era constituída por José da Silva Linhas, Joaquim Assis Pinhão, José Pereira Correeiro, Joaquim Aires, Luís António e José Maria Pereira Carrachola. (O Almonda nº198, 6/5). Mas, segundo o próprio Faustino Bretes, o bodo realizara-se na sede da filarmónica, na rua de San- tiago, mas a banda depressa ingressou na manifestação operária. (Santos, cit, pg 291). Em 1924/25, veremos como as organizações operárias irão conduzir à formação de sindicatos e da imprensa anarquista concelhia. Como remate deste artigo, a notícia da eleição no Parlamento, a 6 de Julho, do futuro Presidente da República, que substituirá o Dr. António José de Almeida. tendo sido escolhido Manuel Teixeira Gomes, escritor e diplomata em Londres, que tomará posse a 5 de Outubro.

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