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O Chapéu de Chuva

No Brasil nunca precisei de chapéu de chuva, um dia decidi ter um. Não por precisar abrigar-me da chuva tropical ou do sol do verão, mas por pura vaidade. Era um chapéu de grife, que logo me abandonou no primeiro café que entrei. Chapéu caro, fruto de um delírio consumista; não era coisa para mim.

Nesta semana começou o frio e a chuva, o vento na Meia Via é demais. Então pensei em abrigar essa minha cabeça encarecada e decidi ter de novo um chapéu. Agora não só por vaidade, mas por necessidade. Depois de cumprir meus afazeres, tratei logo de comprar um chapéu que não fosse muito barato, mas também não muito caro. Calhou-me um chapéu de 25 euros, artefato que pareceu-me bem digno da baixa classe económica a que pertenço em Portugal. Já faz muito tempo que, em Lisboa, negaram-me a venda de uma japona porque julgavam que eu não tinha dinheiro para pagar. Eu, por orgulho, acabei comprando este objeto, que na verdade pouco me serviu e por quem tenho hoje um leve desprezo.

Ao chegar a casa, olhando de frente para o dito artefato, lembrei-me que já na minha infância o chapéu de chuva era considerado um objeto para os velhos. Meu pai nunca usou. Isso era coisa para o meu avô, que com ele saia todos os dias, fizesse chuva ou fizesse sol. Há uma certa intimidade quando se herda um hábito dos nossos avós. Uma certa doçura e um certo orgulho. Mas, parecer mais velho do que já somos não soa bem para ninguém. Ainda mais que o chapéu de chuva está intimamente relacionado com os funerais, onde em procissão, como barracas ambulantes, são inseparáveis acompanhantes de defuntos. Certa vez, ao fazer um funeral, estando com uma das mãos ocupada e a outra a segurar um chapéu de chuva, escorreguei, acabei por cair dentro da cova do morto. O episódio, de tão extraordinário, fez a viúva sorrir.

Ontem, porém, o vento fez-se sentir forte e choveu muito. E precisei do meu chapéu. Quando cheguei no jornal O Almonda estava com ele. Quando voltei da missa das 19 horas, já não sabia onde ele estava. O facto é que os chapéus sempre tiveram o costume de se perderem, de sumirem, de se esconderem para nunca mais serem encontrados. Eles, na verdade, não têm donos. Como os amigos inteligentes, os chapéus só são fiéis aos que se orgulham deles. Quanto aos indecisos, fogem na primeira distração. É assim. Quem já perdeu um chapéu. Sabe o que estou passando.. Durval Baranowske

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