Home > Crónicas > Polémicas em torno do Jornal “O Almonda”

Polémicas em torno do Jornal “O Almonda”

Neste mês de Novembro o jornal “O Almonda” cumpre os seus cem anos de existência. Uma efeméride que poucas publicações regionais e, até mesmo, nacionais se podem orgulhar de festejar. São dez as décadas que nos separam do início da enaltecedora aventura, acontecida a 24 de Novembro de 1918, por intermédio de um grupo “de rapazes que à sua terra muito queriam”. A partir desta data o jornal “ O Almonda” tem-se afirmado, de forma inequívoca, como o meio privilegiado dos cidadãos torrejanos acederem à sua história cultural e aos acontecimentos mais importantes registados no concelho. Mas nem sempre este nobre caminho se fez com isenta clarividência e rigor. Houve períodos na vida do jornal “ O Almonda” em que a objectividade da notícia soçobrou perante os interesses ideológicos dos seus principais responsáveis. Caso relevante deu-se no tempo de vigência do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (1888-1962) à frente dos destinos do jornal. Personalidade afecta ao Estado Novo e incondicional defensor das políticas de Salazar (de quem era amigo desde os tempos de Coimbra), o ilustre torrejano promoveu e utilizou as páginas do jornal “ O Almonda” como porta-voz das acções e ideologia preconizadas por aquele a quem denominava por “Chefe e amigo” (o Dr. Oliveira Salazar). A clara filiação partidária do jornal torrejano ao Estado Novo acarretou alguns desaguisados com vários sectores e individualidades da cultura e pensamento nacionais. Pondo a descoberto a falta de independência de “ O Almonda”. Algumas destas polémicas apareceram nas páginas do jornal torrejano. E são do conhecimento geral do público-leitor, familiarizado com a nossa história local, durante o regime fascista. Mas não é sobre elas que incide o presente artigo. O nosso propósito vai mais longe. Passa por divulgar duas polémicas, em torno de “O Almonda”, que se mantiveram, até hoje, inéditas. Esquecidas entre os inúmeros papéis da correspondência epistolar de destacadas personagens da nossa cultura. A primeira polémica tem como intervenientes os professores Bento de Jesus Caraça (1901-1948) e Luís da Câmara Reys (1885-1961). O jornal torrejano vai estar no cerne de uma pequena discórdia entre os dois grandes vultos da cultura nacional. Originada por um pequeno apontamento publicado a 13 de Março de 1943, no jornal “O Almonda” (nº 1233). A nota, inserida sua “Página Cultural”, tinha como objectivo destacar a actividade editorial da revista “Seara Nova” e de outras editoras no campo da vulgarização da cultura tura. No texto são referidos alguns exemplos de editoras com maior destaque nesta linha editorial, como a “Inquérito”, a “Cosmos”, a Gládio” e os “Cadernos Azuis”. O comentário, publicado no jornal torrejano, vai oscilar entre o elogio e a desconfiança ” intelectual” sobre os fins editoriais das citadas publicações. Algum tempo depois, a dez de Abril, o texto é publicado na segunda página da revista “Seara Nova” (nº 817), de que era director Câmara Reys. A nota chegaria ao conhecimento do eminente matemático e fundador da “Biblioteca Cosmos” (1941), Bento de Jesus Caraça. O seu desagradado foi imediato ao ver publicado, na revista “Seara Nova”, o texto do jornal torrejano. Mais ainda ficou pelo facto de o apontamento, transcrito do jornal “O Almonda”, se aventurar num comentário ambíguo a respeito da sua importante publicação educativa. Desiludido face à atitude de Câmara Reys, Bento de Jesus Caraça escreveu-lhe a perguntar as razões que o levaram a publicar o polémico texto. Câmara Reys esclareceu o seu amigo que o comentário não punha em causa o mérito cultural da “Biblioteca Cosmos” e as razões que es
tavam por detrás da importante iniciativa editorial. Só que a justificação efectuada por um dos principais fundadores da revista “Seara Nova” (1921) não apaziguaria o espírito inconformado
do autor do actualíssimo livro “A Cultura Integral do Indivíduo” (1933). Levando-o, no calor da polémica, a escrever a Câmara Reys uma contundente resposta, que passamos a transcrever:
“ 1943, 12 de Abril. Lisboa Meu caro amigo Dr. Câmara Reys Se bem compreendo a sua carta, o meu amigo defende a menção da nota do “Almonda” no nº 817 da “Seara [Nova] ” pelo facto de as referências que ela faz à “honestidade intelectual” e ao “misterioso segundo sentido” das editoras não dizerem respeito à Biblioteca Cosmos. Ora eu confesso que por mais voltas que dê a essa nota não consigo encontrar nela o menor sinal de excepção. Pelo contrário, vejo a “Cosmos” incluída num grupo de editoras sobre as quais se lança uma claríssima suspeição de “desonestidade” e “sentido”. E vejo mais que a Seara publicou essa nota sem qualquer comentário. Acresce que a imprensa reaccionária (a que “O Almonda” pertence) mais duma vez tem lançado directamente à [Biblioteca] Cosmos (e a outras empresas, mas a ela principalmente) as duas acusações de “desonestidade intelectual” e de “misterioso segundo sentido”. O Dr. Câmara Reys, director de uma Revista actuante na vida política portuguesa não pode ignorar esse factor do nosso clima intelectual. Nunca fiz o mais pequeno comentário a tais acusações; mas
dói-me vê-las agora, lançadas sob a forma larvada de suspeição, transcritas sem uma palavra de protesto na “Seara [Nova]”. De modo que, se há aqui “evidente injustiça praticada” não é por mim certamente. Não meu amigo, não tenho prazer nenhum em lhe dizer isto, mas não posso aceitar a explicação da sua carta; como não posso aceitar que a Seara não diga qualquer coisa aos seus leitores pela sua, para muitos deles certamente inesperada transcrição. Saudações cordiais de Bento de Jesus Caraça”.
É clara a enorme desilusão do distinto matemático, nascido em Vila Viçosa, face à imprudência de Câmara Reys em publicar o apontamento sem o mais leve comentário. A “Seara Nova” prestava-se, assim, de forma acrítica, a dar vazão a um texto que pretendia, exclusivamente, desvirtuar o nobre objectivo de uma das mais importantes publicações de difusão cultural criadas em Portugal. Que, na altura do prematuro desaparecimento do seu fundador, era constituída por 114 títulos, com uma tiragem média por livro de 6980 volumes. Quando o comum era uma edição razoável atingir os 2000 exemplares.
(Continua)
Texto escrito com a antiga ortografia.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *