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Peruanos e bolivianos

Em 1969, após a conclusão da licenciatura, recebemos uma bolsa do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Indiana. O nosso orientador de mestrado era um eminente peruanista e, desde então, sentimo-nos fascinados por esta região do hemisfério ocidental. Temos viajado bastante por estes países. Proferimos conferências, leccionámos seminários e orgulhamo-nos de ter aqui numerosos amigos. Há um mês, concluímos mais um périplo pelas repúblicas andinas. Fomos rever locais que quase tínhamos esquecido e compartilhar emoções com antigos colegas. Nos tempos de estudante, lemos “Los Altos de Macchu Picchu” de Pablo Neruda. Começa assim: ‘Sube a nacer comigo, hermano. Dame la mano desde la profunda zona de dolor’. É dessa época que recordamos igualmente as ruínas incas e um agricultor com cara de sofredor a cumprir o ritual da “tynka”, uma oferenda à Pachamama, a Mãe Terra, para que a colheita fosse abundante. Enquanto cantava, levantava o rosto para o céu e aspergia “chicha”, uma bebida produzida com milho fermentado, pelos quatro pontos cardeais. Terminou derramando o resto no terreno recém-lavrado. Visto que não sofremos de “soroche”, a doença da altitude, decidimos ir até ao imenso Lago Titicaca e prosseguir viagem por La Paz e pelo Salar de Uyuni, um deserto de sal tão grande como um terço da Suíça. A vilória desse nome podia servir de cenário para um filme western. O vento glacial corre nas ruas de casas baixas construídas de terra batida e levanta nuvens de poeira. Estávamos a uns 4 mil metros mais perto do céu. Nesta zona, além do espanhol, fala-se também aimará. A origem deste povo, como a dos incas, perde-se na noite dos tempos. Aimarás e Incas impregnaram fortemente a região com a sua cultura e, ainda hoje, os seus descendentes sentem uma certa nostalgia por esse passado glorioso. Haverá visitantes que podem achar estranhas estas civilizações. No entanto, vale a pena tentar compreendê-las sem preconceitos etnocêntricos.

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