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O Primeiro Número Especial de O Almonda

José Rodrigues dos Santos Gomes Júnior, funcionário da secretaria notarial de Torres Novas, dirige o semanário, substituindo o padre José Maia dos Santos, de 19/6/1921 a 1/1/1923. Primeiro, com o comerciante Manuel Rodrigues Cardoso como editor; a partir de 19/11/1922, sozinho. Por ter saído de Torres Novas, O Almonda surge a 7/1/1923 (nº 181) com um novo editor, Manuel Jacinto de Oliveira, mas sem director indicado – Rodrigues Bicho adianta ser, incógnito, o Dr. Augusto de Azevedo Mendes (A Igreja em Torres novas no Século XX, pág. 377). Não deixa de publicar, a 1/1/1923, o último número da sua direcção, transformado em número especial, o primeiro que se lhe conhece, na sua existência quase centenária. Jornal de construção católica, num mundo concelhio, em que o poder republicano se encontra, após 1919, dividido entre moderados e radicais, com um centro republicano com vida pública só interna, sem órgão de informação próprio desde o encerramento, no início de 1918, de o Torrejano, O Almonda assenhoreia-se da informação concelhia, após o sidonismo, devido à persistência dum grupo de advogados, oriundos do CADC de Coimbra, influencia o sector económico, estabelece um certo predomínio no mundo rural concelhio. O nº 180, a que nos referimos, com oito páginas, já no seu 4º ano de existência, o demonstra. Usa com alguma liberalidade do registo fotográfico. Na 1ª página, com destaque e considerado a figura mais importante do concelho e uma das maiores do mundo religioso, no país, o Arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos, primo do director. Como temas da primeira página, o Natal e o problema do ensino religioso nas escolas privadas, que era um dos temas de grande debate no parlamento, sustentado pelos deputados católicos. Uma 2º página, com uma história religiosa sobre o Natal e um poema do Dr. Alberto Dinis da Fonseca. Na 3ª, da autoria de Artur Gonçalves, um artigo biográfico sobre a actriz Virgínia. Lateralmente, o professor do ensino primário da vila, João Tomás Gonçalves, chama a atenção do município para a assistência escolar, tão ao abandono, quanto carenciada se minifesta. Na 4ª página, o tema fulcral é a Misericórdia e o autor o Dr. Carlos Mendes. Sobre a importância do Hospital e dos apoios que lhe são necessários. Dr. Augusto Mendes, que escreve sobre Assistência Local, que considera muito pouco apoiada pelos poderes públicos e pelos privados, mas nos revela quais as instituições da vila que se dedicam ao sector: o hospital, o asilo de D. Gyão , o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, a casa de trabalho (recente) de Nossa Senhora do Rosário. E não sita, mas surge no jornal, a conferência de

Uma fotografia do mesmo enquadra o artigo. A 5ª página é dominada pelo Sindicato Agrícola de Torres Novas e a sua Cooperativa, sob a pena do presidente do mesmo e da comissão Administrativa Camarária, do Dr. João Martins de Azevedo, com fotografia, em que se historia a existência de ambos, com seus objectivos e dissabores. Completando o núcleo duro dos colaboradores convidados, o S. Vicente de Paulo, que não é esquecido e merece biografia com gravura na 7ª página. Não se ignore também o destaque à fotografia de Artur Gonçalves. A importância da agricultura concelhia impõe-se, de novo, na página 7, com o mesmo tema do cooperativismo no concelho de torres novas, agora pela pena do Dr. Alberto, também fotografado, que nos revela a existência, à época, da Cooperativa do Sindicato Agrícola, da das Lapas, da de Árgea «não sabemos se ainda existe», da dos Empregados Ferroviários do Entroncamento, assim como das «associações bovinas» da Meia Via, Riachos e Brogueira. Nem uma palavra sob o sector comercial e industrial concelhio, que tradicionalmente apoiava o Partido Democrático, ainda que, nas pequenas notí- cias, a propósito da nova câmara eleita para o próximo mandato, chama a atenção para electrificação em curso da vila, a cargo duma nova empresa de capitalistas locais.

A última página é guardada para as notícias dos colaboradores das aldeias, quase todas integradas nas cerimónias natalícias. Meia Via, Pedrógão, Parceiros, Riachos e Lapas a são as distinguidas no número especial. Das pequenas notícias, como número especial, são parcos os exemplos. Mas revela a existência das colectividades desportivas que existiam há dois anos: O Torrejano Foot-Ball Club 11 Caveiras, que deu sinal de vida no Natal, «içando a sua bandeira na sede»; Os Cadetes de Nun’Álvares, que hoje se não manifestam; o Grupo Operário Torrejano, uma vaga que passou há muito tempo. E incita a uma união do que ainda sobrevive, para bem do desporto. Do quotidiano, além das rubricas À Pesca de Notícias, atrainos uma sobre a Banda Operária recém-renascida, que iria no dia 14 do corrente apresentar no Virgínia uma sarau artístico, onde se destacaria, o grande amador teatral Joaquim Oliveira, vulgo Labita. Número especial de afirmação do catolicismo concelhio, sustentado pelas suas principais figuras, o Dr Alberto, o Dr. Carlos e o irmão, o Dr. Augusto Mendes. Associado, a figura principal da politica agrária conservadora, o grande proprietário e presidente da Câmara, Dr. João Martins de Azevedo, presidente local do Partido Nacionalista. Completam o periódico os seus colaboradores habituais, o director cessante, o padre José Maya e o chefe de secretaria da Câmara, republicano a caminho da indiferença, Artur Gonçalves.
antoniomario45@gmail.co

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