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Visitas Pastorais à Igreja de Santiago de Torres Novas

Outra situação descrita pelo Dr. Luís Gomes Loureiro tem como pano de fundo a conhecidíssima imagem do “Senhor Jesus dos Lavradores”: ao visitador chegou a denúncia de que os menos católicos tinham por hábito “o abominável atrevimento de correrem as cortinas quando se expõem à veneração dos fiéis a milagrosa imagem do Senhor Jesus de São Tiago, e outros tocam com água e outras cousas nos pés da dita sagrada imagem para remédio dos enfermos, ou consolação dos devotos, o que [segundo a tradição religiosa] lhes é proibido por todo o direito, por serem estas acções próprias dos sacerdotes. Depois de proibir, estranhar e detestar tão escandaloso abuso, [o visitador exorta] o Prior de Santiago [a não consentir] que estas acções sejam exercidas por pessoas seculares” (op. cit., págs. 12-13). Na parte final do texto da visita, o representante do Cardeal Patriarca D. Tomás de Almeida descreve algumas considerações sobre as visitas efectuadas às ermidas e capelas do concelho torrejano. A segunda visita deu-se a 2 de Julho de 1684 (comum ao dois autores), por intermédio Manuel de Paes? (Jesus, segundo Vítor Serrão) de Macedo. O representante do arcebispo de Lisboa, refere na visita uma queixa geral sentida por alguns habitantes, da então vila torrejana, sobre o facto de “que em nenhuma das [suas] igrejas se [explicar] o evangelho nas Domingas da quaresma como tem o costume geral deste Arcebispado…” (Livro dos Capítulos…, pág. 6). Também o Padre Manuel Macedo – à semelhança do seu superior – achou a igreja de Santiago a menos ornada da vila. Os sinais de descuido, por parte dos priores da igreja, eram ainda visíveis. Faltavam-lhe alguns bens e outros artefactos apresentavam visíveis sinais de deterioração. Com especial relevo para as portas “que não [estavam] capazes de (…) guardar a Igreja do Sacrário”. Manuel Macedo recomenda no texto da visita para que o “Prioste compre duas lanternas de folhas de flandres para se acompanharem com luz os Santos óleos quando vão ungir os enfermos”.

Na terceira visita, a 6 de Dezembro de 1694 (data comum aos dois historiadores), João de Matos Henriques salienta o facto de ver a “igreja de [Santiago] muito bem assistida pelo Reverendíssimo Prior com os Sacramentos e doutrina cristã aos fregueses, os ornamentos todos para o Culto Divino com perfeição…” (op. cit. pág. 6). No texto, o padre João de Matos tece algumas considerações sobre o pouco resguardo e resistência que havia nas Portas da Ermida de N. Sra. dos Anjos anexa [à igreja de Santiago] e por essa causa o Reverendo Prior [de Santiago] tinha as relíquias dos Santos Mártires Cosme e Damião na sua igreja”. Mandando que, “enquanto se não ordenar a Irmandade dos ditos Santos na dita Ermida, esteja na dita posse, e havendo Irmandade as tornará à dita Ermida, ficando sempre na sua mão as chaves dela como Pároco a quem pertencem” (op. cit. pág. 7). O longo texto da visita recai novamente sobre algumas recomendações feitas aos prelados da igreja. No capítulo das devassas, eram reprovados, como contrários às Constituições Sinodais, os comportamentos de alguns esposados que assistiam em casa das suas noivas antes de receberem, de que [nasciam] muitos escândalos e ofensas a Deus” (op. cit., pág. 8). A reprimenda também se estendia para o costume de alguns habitantes de “botarem alguma imundície no adro da [igreja de Santiago] e das ermidas suas anexas ou nelas estenderem roupas.”

Outras importantes considera- ções são descritas no vasto texto. Mas a extensão do nosso artigo (esta é a sua segunda parte) e os limites da paciência do leitor sobre estas nuances do foro eclesiástico, obrigam-nos a abreviar a nossa viagem pelos costumes e comportamentos da antiga vila torrejana. Apenas queríamos registar, como nota final desta visita, o apreço da igreja pela cerimónia religiosa, advertindo todos aqueles que assistiam ao coro, e “iam à Igreja dizer missa sem a compostura sacerdotal”.

Na quarta visita, acontecida no dia 24 de Novembro de 1706 (o Prof. Dr. Vítor Serrão refere uma outra data: 24 de Dezembro de 1704), D. Fernando e Abreu Faria, Desembargador da Relação Eclesiástica e Visitador do Arcediago de Santarém, elogia “o afecto [que o prior da igreja] empreendeu na sua reedificação”, conseguindo “vê-la erigida e ornada com a decência que se deve a uma casa de Deus” (op. cit., pág. 9). A quinta visita, ocorrida a 19 de Junho de 1723 (Vítor Serrão aponta para o dia 15 de Julho de 1715), o Dr. Pedro Brito da Costa achou a “igreja bem paramentada”, louvando “o Reverendo Prior e Beneficiados o muito zelo e dispêndio com
que a servem” (op. cit., pág. 9). A sexta visita, efectuada a 16 de Setembro de 1726 (o Prof. Dr. Vítor Serrão inscreve-a a 30 de Setembro de 1726) pelo Dr. António do Espírito Santo Freire, envereda pelo mesmo diapasão da anterior, enaltecendo o seu Prior “por apresentar a Igreja bem assistida assim no pertence ao temporal como ao espiritual” (op. cit.,pág. 10). Pelo visitador são feitos reparos quanto à decência com que alguns irmãos “se vestem na altura de levar o Santíssimo aos enfermos”. A sua advertência estende-se também quanto aos reduzidos honorários auferidos pelos quatro tesoureiros quando assistem aos ofícios dos defuntos que se fazem nas igrejas.

O texto da sétima visita é talvez aquele que desperta maior interesse sociológico. Pormenor importante tem a ver com a descrição de casos em que a esfera profana invade o domínio do sagrado. Dada a extensão do texto ficamos, fundamentalmente, com a descrição de algumas admoestações e os relatos dos episódios que têm como actores as populações da Meia Via e Riachos. A citada visita teve lugar a 31 de Outubro de 1747, por intermédio do Dr. Luís Gomes de Loureiro (Vítor Serrão, coloca-a a 21 de Maio de 1747).

Após a advertência do visitador sobre a necessidade de se pagar o dízimo da uva preta, sob pena de excomunhão, a sua crí- tica incide sobre o comportamento reprovável de alguns eclesiásticos, admoestando-os a andarem pelas ruas da vila com toda a decência. Recebera a queixa de que era corrente os membros do clero andarem vestidos como qualquer cidadão. Sendo apenas reconhecidos pela tonsura [corte de cabelo]. A partir da visita ficou determinado, sob pena de multa, que “não podiam andar sem ao menos trazerem casaca, cabeção e volta.” (op. cit., pág. 11). Outro reparo do visitador alertava para o incorrecto costume de as pessoas conversarem enquanto se cantavam as lições na igreja.

Os habitantes da Meia Via e, principalmente, de Riachos já nesta altura demonstravam a sua conhecida faceta de irreverência pueril. Vários casos de inconformismo e rebeldia são imputados às suas populações. Segundo o Dr. Luís Loureiro “[Consta] que nos alpendres ou entradas das capelas, [dos referidos lugares] sujeitas à igreja de Santiago, se fazem em algumas ocasiões, concurso de bailes profanos (…). Chegou também ao seu conhecimento que os moradores, mordomos e confrades das confrarias do dito lugar de Riachos, aplicam e gastam os rendimentos das confrarias, e esmolas que dão os moradores do dito lugar, ou as esmolas que lhes são impostas, em coisas menos lícitas, e festas de touros, que não são do agrado de deus. Não dedicando os ditos rendimen- tos, multas e esmolas, se gastem nos sermões e festas que sempre se costumavam fazer na capela de Santo António do dito lugar.” (op. cit., pág. 12). Também quando era necessário “administrar o sagrado viático aos enfermos dos Riachos, os mordomos que tinham a obrigação de acompanhar o Santíssimo Sacramento ausentavam-se do lugar, e que os mais moradores se escondem quando ouvem o sino para os chamar para tão louvável e obrigatório serviço, o que causa grande escândalo.”

Na oitava visita, ocorrida a 18 de Fevereiro de 1752 (data comum aos dois historiadores), o Dr. Manuel Romão faz referência ao bom trabalho do Prior, pelo “asseio e perfeição da sua Igreja [Santiago]. O mesmo elogio ao trabalho desenvolvido pelo prior da igreja persiste na última visita, realizada a 13 de Setembro 1756 (a mesma data para os dois autores), pelo Dr. Henrique Henriques da Maia. Ressalvando duas advertências: a primeira referente ao uso indevido dos Barretes eclesiásticos pelas ruas e a segunda para o facto de o Prior “não ter mandado passar os capítulos das duas visitas anteriores” (op. cit., pág. 15). Eis-nos chegado ao fim do nosso périplo através das ricas e frutuosas evocações que encerram o velho códice da Igreja de Santiago de Torres Novas. Imagem de uma antiga vila torrejana não muito diferente da actualidade. Marcada pelas virtudes e pelos pecados de uma natureza humana em eterna tentativa de aperfeiçoamento.
Texto escrito com a antiga ortografia

 

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