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Aceitar o que é inaceitável

É duro quando sentimos um vazio na nossa vida. Trabalhamos, saímos, convivemos. Mas mesmo no meio da multidão sentimo-nos perdidos. E de um dia para o outro, sem hora marcada eis que nos acontece algo extraordinariamente cruel. Temos um acidente que nos deixa numa cadeira de rodas; descobrem-nos doenças oncológicas que nos atiram para um mundo em que nunca pensamos estar alguma vez; somos assaltados, espancados e ficamos invisuais; nascemos com deficiências e somos empurrados para outra dimensão.

Em alguns casos trabalhamos até aguentar. Outras vezes temos de ir para a baixa e um dia somos orientados pelo médico da junta médica para que nos reformemos por invalidez. Entre avaliações e exames atribuem-nos um grau de incapacidade que fica registado num Atestado Médico de Incapacidade Multiusos. Informam-nos que ficamos com algumas benesses fiscais, na compra de carro novo, isenção de taxas do IRS, não pagarmos as taxas moderadoras entre outras coisas. Que bom. Mas na realidade somos altamente banidos de certos descontos que nos fazem falta para melhorar a nossa saúde. Como por exemplo frequentar aulas de hidroginástica e hidroterapia, temos de pagar por inteiro. Nas piscinas de Torres Novas informaram-me que direito a desconto só os bombeiros que trabalham (acho muito bem); a empresa da Renova; a Escola Prática de Polícia; os reformados por idade e os funcionários públicos do município. Nessa altura falei com a senhora Vereadora da Cultura que me disse que ia tratar do assunto. Até hoje nenhuma resposta. Apenas temos direito a aulas livres gratuitas.

Não compreendemos como é que entramos gratuitamente nas piscinas de Porto Moniz na ilha da Madeira; no passeio de barco até ao ilhéu de Vila Franca do Campo nos Açores; na Roménia entramos sem pagar em todos os museus, castelos, palácios; nas viagens de comboio da CP pagamos menos de 75% e quem nos acompanha paga menos de 25%. Já no Expresso da Rodoviária nacional não se aplicam esses descontos.

Somos seres humanos que trabalhamos e descontamos. Tivemos infortúnios que nos mudaram a nossa maneira de viver e que não somos ajudados, nem respeitados como deveríamos ser. Não estamos armados em vítimas muito menos gostamos que nos tratem por coitadinhos e tenham pena de nós. Mas ninguém imagina o que cada um com a sua dor sofre para sobreviver nesta selva chamada terra, em que os governantes deixam muito a desejar durante cada mandato. Como não nos ouvem, falamos, gritamos, aceitamo-nos mas não aceitamos o que achamos inaceitável. Mas como diz alguém “Cai num hospital, ou numa prisão e verás quem te ajuda”.

 

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