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A Política Republicana em busca de consensos políticos

A ideia que nos fica dos acontecimentos de 1922 é que, quer a nível nacional, quer local, o conservadorismo económico, social e e político, vai substituir o radicalismo urbano que conduzira, em 1921, à Noite Sangrenta de Outubro, com os assassinatos do primeiro-ministro Granjo e doutras figuras republicanas, como Carlos da Maia e Machado Santos.

O retorno eleitoral, em Fevereiro, do Partido Democrático ao poder, com António Maria da Silva, vem-nos demonstrar como o sistema eleitoral censitário promovia o caciquismo e o PRP continuava a dominar o país político. Mas é também o ano em que começa o separar das águas, a dividir o partido numa facção conservadora, que procura uma acção política moderada, em conciliação com a Igreja Católica e os grandes da economia e das finanças, e numa segunda, radical, minoritária mas activa, que, sob a efígie dum Afonso Costa chamado a intervir, mas que desiste, recuando para o seu cargo na Sociedade das Nações, irá originar no primeiro semestre do ano, uma cisão no Partido Democrático, aliando outubristas e elementos esquerdistas do Partido Popular num novo: o Partido Radical (Oliveira Marques, História da 1.ª República Portuguesa, págs. 563/4). O caminho do poder estava traçado. As relações dos restantes partidos com assento no parlamento a isso conduzem. O Centro Católico, os monárquicos, os liberais, associados aos grupos económicos promovidos pelo Século e o Diário
de Notícias, abrem caminho à ideia teórica, que se comprovou posteriormente impossível, de conciliação. Se os monárquicos da parte do rei no exílio, D. Manuel II, pelo pacto de Paris, realizado em Abril, apoiam a intervenção na vida política, por meios legais, o Centro Católico, a partir dos dois congressos, o de Lisboa (29/30/Abril), e o da Juventude Católica de Coimbra (2/3/Maio) (O Almonda n.º 142, 9/4), segue a política aí teorizada por António de Oliveira Salazar. «A defesa do catolicismo está na essência da política. O regime republicano é conciliável com a doutrina social da igreja católica».

Três acontecimentos conciliam república e catolicismo: a abertura do poder político à vida religiosa no país, com a permissão das procissões religiosas tradicionais e o incremento dos actos religiosos (vide notícias das aldeias no periódico, ao longo do ano). A lenta, mas decisiva, implantação de Fátima, a partir do bispado de Leiria, com peregrinações nacionais cada vez mais numerosas, publicita- das e defendidas na imprensa católica com todo a energia (vide O Almonda n.º 141, 21/5; n.º 169,15/10). O regresso das ordens religiosas, que aparecem, como na misericórdia local, a substituir os empregados laicos. A posição de compromisso nacional e aceitação da igreja católica como elemento intrínseco da vida do povo português, com a realização da cerimónia do empossamento cardinalício do núncio apostólico Locatelli (Idem. N.º 183, 21/1/1923), quase num regresso ao beneplácito régio, pelo Presidente da República António José de Almeida. Acrescente-se-lhe a defesa ardorosa dos deputados católicos em defesa do ensino religioso nos estabelecimentos privados, o que a república proibira com a lei da separação.

Mais dois acontecimentos procuram unir a mentalidade política portuguesa num objectivo nacional: a viagem aérea Portugal-Brasil de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que o semanário glorifica e que Torres Novas, como o país, festeja, com espetáculos, comícios, manifestações, que reúne a elite concelhia, democrática, radical, católica, liberal (Idem, n.º 152, 14/6; n.º 154, 24/6). E a do presidente da república ao Brasil (26/8-11/10), numa aproximação histórica que se exigia, pelos laços de sangue, da língua, da emigração.

Todos estes acontecimentos preenchem o ano do semanário O Almonda, neste ano de 1922, sob a capa duma política local de maioria conservadora, a cargo do Dr. João Martins de Azevedo, que, nas eleições do fim do ano, mantém a sua maioria, contra uma minoria democrática, da facção mais moderada. Por sua vez, a mentalidade concelhia dos diversos responsáveis políticos é o da união de esforços para a melhoria do desenvolvimento concelhio. As entrevistas aos representantes das diversas correntes partidárias, entre 10 de Junho e 19 de Agosto, o demonstram. Por sua vez, se a política camarária merece destaque, pelo conjunto de obras levadas e efeito (O Almonda n.º 168, 7/10),já as manifestações operárias esmoreceram e raro nos parecem referenciadas. Exceptue-se, a luta dos empregados de comércio, com o apoio da administração, pelo cumprimento patronal do horário de trabalho (Cor. Adm. 15/5); ou da festa do Primeiro de Maio, com um agradecimento do operariado ao patrão, o que nos indica que a efeméride é festejada dentro dum espírito de pouca identidade proletária (Id, n.º 146, 7/5). Os problemas mais graves, a inflacção, a depreciação do salário fixo, a falta de higiene, a miséria, as péssimas condições de habitação, o desemprego, o alcoolismo, a tuberculose, são outra imagem do espelho social que o jornal revela (id, n.º 170, 22/10), mostrando um divórcio profundo entre a sociedade republicana e as classes trabalhadoras, que vivem nas periferias, e sobre as quais o poder político pouco ou nada diz. antoniomario45@gamil.com O autor segue o antigo acordo ortográfico

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