Home > Saúde > De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

O Raf

Por: Telma Gomes

Por vezes, falta a inspiração. A mão está destreinada, a cabeça em mil sítios diferentes, em todo lado menos no artigo em que deve pensar. “O que é que vou escrever esta semana?”. Alguns temas já estão batidos… eis que entra o coração, a acalmar a razão. Hoje falo-vos do Raf.

Há cerca de um mês, o Raf foi recolhido. Mais um cão abandonado, velho e enorme. O típico cão menos adotável. Encontrava-se sujo, muito magro, anémico e cheio de medos. O seu porte de Rafeiro Alentejano estava meio disfarçado pela pobre condição corporal em que se encontrava.

Na verdade, naquele dia, consegui pegá-lo ao colo, e isso diz muito sobre o seu estado. Diz também sobre o seu carácter: apesar do medo, apesar de não me conhecer de nenhum lado, apesar de não ter gostado da trela que tentei colocar-lhe, em momento algum mostrou sinais de agressividade. Simplesmente, deixou-se ir.

Os dias sucederam-se, e fui tendo oportunidade de o conhecer melhor e de conquistar a sua confiança. Rejubilei quando comeu na minha mão. Sorri, quando consegui, pela primeira vez, passar-lhe apenas a trela no pescoço. Relaxei, durante uma hora de almoço, enquanto lhe dei banho. Os meus dias de trabalho começavam na maior alegria: latidos e saltos acompanhavam o meu início de dia. Era de uma gratidão profunda. E ainda é.

Hoje, o Raf é o meu. Vive comigo, em minha casa, e todos os dias me mostra como um cão valoriza as oportunidades que lhe são dadas. Não tenho dúvidas, o Raf sabe. Nem tenho dúvidas, o Raf é grato. Já esteve comigo numa escola, a ser abraçado por 25 crianças, enquanto se deixava manipular com uma trela.

Mostrou como é paciente e dócil. Mostrou como não é preciso ser um cachorrinho bonitinho para se ser um companheiro perfeito. Não tenho dúvidas. O Raf é o meu amigo para a vida. Não sei quantos mais anos poderei beneficiar da sua amizade, mas enquanto ele aqui estiver, ganhamos os dois. Há quem diga que não adota cães velhos porque já vivem pouco tempo. A esses, só posso responder: cada dia da nova vida desses animais é um dia ganho e merecido. É um dia digno. É um dia infinitamente grato. É um dia amadurecido e feliz.

É um dia de aprendizagem e confiança. É um dia em que descobrimos que, afinal, o nosso coração é ainda melhor do que pensávamos. Quanto a mim, não sei se haverá alguma sensação melhor do que a de conquistar e merecer a confiança de um animal possuidor do seu próprio carácter e natureza. Na sua simplicidade, há reconhecimento e gratidão. E isso aquece qualquer coração. Como está o seu?

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *