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Visitas Pastorais à Igreja de Santiago de Torres Novas

As visitações ou as visitas pastorais são um mecanismo de fiscalização dos bispos ao estado das paróquias sob a sua jurisdição eclesiástica. Esta prática perde-se na memória dos tempos. Segundo alguns historiadores o início das visitas remonta aos primórdios da Cristandade, quando o apóstolo São Paulo fez recair sobre Tito e Timóteo a responsabilidade de visitar as igrejas que havia fundado em Creta e Éfeso (I Tim. 4,6).

Em Portugal, os textos mais antigos das visitações datam do século XIV. Ao longo dos tempos a frequência das visitas pastorais atravessaram por momentos de enorme irregularidade. Chegando ao ponto de caírem em desuso. Só a partir do Concílio de Trento (Séc. XVI) é que a prática das visitas se intensificou. Com a sua institucionalização os responsáveis eclesiásticos pretendiam, fundamentalmente, avaliar o estado moral e religioso das populações e do clero. As visitas pastorais tinham também por finalidade inteirar do estado das igrejas e dos objectos cultuais. Das visitas, efectuadas pelo bispo ou por um seu representante, resultavam diversas medidas ou multas. Estas acções pretendiam corrigir os comportamentos dos fiéis e prelados, pouco consentâneos com os preceitos da igreja. As objecções e as consequências retiradas da visita eram escritas num livro que pertencia à igreja, sendo o seu conteúdo divulgado aos fiéis.

Hoje em dia, estes velhos documentos constituem uma importante fonte de informação histórica. As suas descrições são uma enorme achega para o conhecimento dos comportamentos e da vida das antigas populações locais. No foro religioso, dão-nos a conhecer as irmandades existentes na altura e os elementos do clero. Das igrejas de Torres Novas conhecem-se alguns livros de visitações. Os Arquivos da Cúria Patriarcal de Lisboa guardam o códice da nossa Igreja de Santiago (MS 148), constituído por 23 fólios de papel. O interesse histórico, contido nas descrições das visitas à igreja torrejana, não passou desapercebido ao grande especialista de Direito Canónico e reputado Paleógrafo, Isaías Rosa Pereira (1919-1998). Em 1964, o distinto historiador fazia publicar, na separata da revista “Lumen”, a transcrição integral do velho livro.

As visitas pastorais existentes no códice da igreja de Santiago abrangem um período de 80 anos. A primeira visita aconteceu a 9 de Fevereiro de 1677. Tendo, a última, sido efectuada a 13 de Setembro de 1756. Segundo o eminente padre, Isaías Pereira, o livro apresenta-se incompleto. O que leva a supor haver outras descrições de visitas que não resistiram à incúria e ao desleixo dos homens. Um pormenor importante, relacionado com a transcrição do texto, diz respeito aos dias em que aconteceram as nove visitas à Igreja de Santiago: o historiador Vítor Serrão, no seu livro ” As igrejas do Salvador, São Tiago e São Pedro de Torres Novas” (2012), aponta quatro datas diferentes para as mesmas visitas que se encontram no folheto do Isaías Pereira. Como na bibliografia da citada obra do eminente Historiador de Arte, Vítor Serrão, consta o opúsculo do distinto Paleógrafo, julgamos que seria de bom-tom referir no seu livro as razões que o levaram a divergir nas quatro datas propostas pelo reputado especialista em História Medieval.

Antes da visita era frequente proceder-se à afixação de um edital, em forma de questionário, à porta da igreja. Aos fiéis cabia o dever de informar o visitador sobre os desvios doutrinais ou morais protagonizados, quer por parte de alguns elementos do povo ou por elementos do clero. A partir das denúncias o visitador procedia às respectivas recomendações ou à aplicação de multas pecuniárias, se a gravidade do caso assim o ditasse. No antigo códice da Igreja de Santiago a primeira visita referenciada (com data comum aos dois Historiadores) deu-se a 9 de Fevereiro de 1677, por intermédio do arcebispo de Lisboa, D. Luís de Sousa (1675-1702).O relatório da visita pastoral é bastante crítico sobre a actuação dos responsáveis da igreja de Santiago. Começa por referir o “descuido que o Prior [da dita igreja] tinha em não ensinar a doutrina cristã todos os Domingos e dias Santos aos meninos e escravos da sua freguesia” (Livro dos Capítulos da Vesita da Igreja de São Tiago” pág. 4). (Esta passagem revela-nos a existência de escravos na antiga vila torrejana. Cabia à igreja, através da sua missão evangelizadora, integrá-los no seio da comunidade).

O Bispo, D. Luís de Sousa, adverte no texto que a continuada incidência no reprovável
descuido – contrário ao espírito Tridentino e às Constituições do Arcebispado – acarretaria a punição dos prevaricadores com a multa de dez tostões. O dever de encaminhar as crianças e os escravos para a administração dos ensinamentos religiosos estendia-se também aos pais e aos amos. O padre tinha a obrigação de informá-los que deviam mandar os seus filhos e os escravos para aprenderem a doutrina cristã à hora que os clérigos determinassem. No texto da visita, D. Luís de Sousa recomenda aos fiéis para que rezem todos os dias o terço na sua freguesia. Ao Prior, Beneficiados e mais Clérigos exorta-os, sob pena de multa, a “ [rezarem] todos os dias em sua Igreja o terço da Virgem Nossa Senhora.” Nesta visita, o Arcebispo de Lisboa critica o desleixo dos clérigos em relação ao estado da Igreja de Santiago. O distinto prelado “ [achou-a] muito destituída de ornamentos, vestimentas e de tudo o mais necessário para o culto divino e sacrifício da missa”. Como depreendemos por este reparo, era grande a exigência e preocupação dos responsáveis eclesiásticos superiores para que as igrejas fossem providas de todos os elementos necessários ao exercício das práticas cultuais. A solenidade da cerimónia e a casa do Senhor assim o obrigavam. Nessa medida, D. Luís de Sousa exigiu ao prior da igreja para, no prazo de seis meses, “renovar as vestimentas, casulas, alvas, toalhas do altar, corporais e tudo o mais necessário” de que carecia a sacristia. A última advertência do texto da primeira visita pastoral refere o “descuido de todos os Priores das Igrejas da vila em não passarem as visitas dos anos anteriores pela chancelaria do Arcediago.

Texto escrito com a antiga ­ortografia

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