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Os sapateiros do meu tempo de miúdo

Nasci entre as solas, cabedais e outras coisas mais, relacionadas com a manufactura de sapatos, sandálias, botas e botins e mesmo das botas altas para os oficiais de cavalaria da EPC e para os homens da Brigada de Trânsito da GNR. E ali, na loja onde meu pai era caixeiro, no Largo da Rua Nova, na mercearia e solas e cabedais de seu tio Joaquim da Silva Patrício, todos os sapateiros do concelho de Torres Novas e de outros vizinhos vinham, em especial às segundas feiras, dia de mercado semanal nessa altura, comprar tudo o que necessitavam para a sua actividade profissional. Nunca percebi, ou talvez sim, porque razão as dezenas de sapateiros resolviam esperar para ser atendidos pelo meu pai, pese embora o enorme tempo que gastavam com a espera da sua vez. Mas ela lá chegava e o Zé Pinheiro era pau para toda a obra, e era vê-lo a aviar desde palmilhas de cortiça já prontas a ser utilizadas ou placas de cortiça que tinham que ser cortadas e moldadas a cada sapato. Depois eram os pregos, de todos os tamanhos, as brochas para as botas durarem mais, as pomadas, os crutes de sola, as carneiras para forros, os calfes e os cabedais para sapatos mais finos, as anilinas e tintas, as colas, os sebos e o cerol, os fios e linhas de sapateiro, e depois as sovelas, as torqueses, as bimbarretas, os martelos e as facas, os atacadores de diversas cores, as tesouras, as viras e as virolas, as gáspeas, as floretas e as encóspias. Tudo isso o meu pai dominava bem e era ele quem cortava, através de moldes trazidos pelos clientes, em papel de embrulho, as diversas peças na pele escolhida, para regra geral, serem depois entregues à minha mãe, uma conceituada ajuntadeira de calçado, que pese embora tivesse graves problemas de visão, era muito perfeita na costura dos sapatos, fossem de homem ou de senhora. Ainda conservo a velhinha máquina de costura, que me embalou durante os meus primeiros meses de vida e que, como já aqui referi em anterior escrito, também às vezes servia para arrancar alguns dentes de algumas vizinhas mais aflitas. Nada ganhava com estes trabalhos de dentista de ocasião e quanto ao trabalho de ajuntadeira também era bastante mal pago para a exigência e trabalho que dava. Eram muitos os sapateiros locais mas a modernidade e as novas tecnologias fazem com que se contem pelos dedos de uma mão os sapateiros tradicionais, sentados em cadeirinhas baixas e usando sempre um avental de pano ou de cabedal que punham sobre as pernas para não se sujarem. Passei horas e horas a observar a forma como trabalhavam, e a sua geral boa disposição, com conversas picantes e marotas para crianças de tenra idade como eu era. Mas, em jeito de homenagem aqui deixo este humilde escrito a muitos homens que conheci em criança e que me ajudaram a conhecer o que custava a ganhar a vida.

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