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Um passado que se recupera

Este Outono está feito um verão prolongado. Sinto que o tempo, este tempo, está de pernas para o ar. O calor tardio, que me vai atormentando os dias, cansa. Outrora, quando Torres Novas era uma região produtora de figo, os últimos fulgores do sol estival eram cuidadosamente aproveitados para expor os tabuleiros que apressadamente se guardavam quando chegavam as primeiras chuvas. Então, em finais de setembro, os últimos ranchos da apanha do figo, ainda alegravam com as suas cantigas encostas e vales povoados de figueirais. Das figueiras de outrora já pouco resta, morreram ou estão abraçadas por matos e silvados; já não há ranchos nem cantigas, nem bailaricos ao serão. Mas do que foi outrora nem tudo morreu, alguma tradição vem do passado avivar a memória, recuperar vivências.

Temos, hoje, por aí novos figueirais. Dizem que o figo preto de Torres Novas voltou. Quem disse? Então não está aí, a marcar presença, a Feira dos Frutos Secos? E há amêndoas, uvas-passas e…pessoas que vêm à praça. Há música, animação, convívio. Porém há coisas, que apesar da festa, não regressam. Ainda anda por aí essa bela aguardente de figo que em dias mais frios até partia pedra? Nem me cheira. Até as tabernas onde se servia aquele copinho que incendiava garganta e nariz, já morreram todas. E o Zé da Ana ficava ali mesmo à mão. Além disso este tempo prolongadamente quente nem puxa por um copinho de aguardente que in illo tempore custava dez tostões.

Resta-nos a feira anual que nos vem lembrar que Torres Novas é uma pátria dos frutos secos. Será?

Eduardo Bento

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