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Dos adivinhos e das andorinhas

As andorinhas trazem a primavera e vão-se embora no final do verão. Não é grande ciência saber isto, nem sequer requer artes especiais de adivinhação. Ainda o inverno não acabou e cá estão elas. De quais falamos: das chaminés, dos beirais, das barreiras, das rochas, das dáuricas? Todas estas, mais umas menos outras, se vêm por Torres Novas. As que anunciam a primavera, as das chaminés, são as primeiras. Quando no boletim meteorológico se fala da sua vinda, já cá estão há alguns meses, rasando o chão, perseguindo insetos afanosamente, gravemente vestidas de fraque a que não falta nem o rabo de grilo. Mais tarde, chegam as dos beirais também de preto de preto e branco mais ligeiras fazendo o ninho, onde deixamos, à sombra das telhas sobressaídas dos beirados. As das barreiras, de delicado colar e costas cor da terra, criam nos areeiros pelas margens dos rios e nos buracos de muros de suporte de terras. As das rochas, acinzentadas, permanecem durante todo o ano e constroem lares discretos nos vãos dos prédios altos onde descrevem mirabolantes acrobacias.

As dáuricas, mais raras, aparecem pelas pontes onde deixam ninhos delicados em forma de garrafa. Todas elas, qualquer das cinco, trinam, chilreiam, pipilam, fazem as suas casas, onde regressam todos os anos, com pequenas bolas de barro. Todos sabem distinguir uma andorinha dos outros pássaros. Elas marcam as estações, equinócios e solstícios. Os romanos acreditavam que, pelos seus voos, era possível prever a fertilidade das searas, a chegada das chuvas. Talvez tudo fosse mistificação, ou talvez não, porque vem nos livros do Asterix! Talvez que nessa altura, na aurora do cristianismo, se soubessem segredos que foram irremediavelmente esquecidos, do tempo dos adivinhos e das andorinhas.

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