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Crise e regeneração

Em finais de Agosto passado uma onda de notícias sobre escândalos de pedofilia abateu-se sobre a Igreja. De seis dioceses da Pensilvânia, onde um relatório refere 1000 vítimas de abuso sexual da parte de 300 sacerdotes ao longo de setenta anos aproximadamente; informações muito concretas de idênticos crimes na Irlanda, onde o Papa Francisco realizava na altura uma visita pastoral (25 e 26 de Agosto); e ainda de outros países onde se haviam divulgado vergonhas semelhantes.

Anos atrás julgaríamos impossível esta sujeira, sobretudo da parte de ministros da Igreja. Como é possível que se caia em tais crimes repugnantes? São abusos espalhados em vários âmbitos, existem factos em muitos lados, as mais das vezes na própria família. A condição humana tem realmente a marca do pecado. Uma marca que, nestes casos, nos desconcerta, envergonha e humilha. Que não podemos tolerar de forma alguma. “Tolerância zero” como tem recomendado o Papa.

Afinal este crime não é só de agora, não é particular do século XXI. Houve a mesma mancha noutros séculos e noutras civilizações. O que é mais próprio do nosso tempo é a informação, a divulgação e a rejeição. Permite-nos, assim, reconhecer, proteger as vítimas e combater por todos os meios esta chaga.

Perante a gravidade destes factos, o Papa Francisco entendeu escrever uma sentida Carta ao Povo de Deus, a 20 de Agosto, antes de partir para a Irlanda. Na convicção declarada que só é possível erradicar esta “cultura de abuso” com a participação activa de todos os membros da Igreja: “É imperativo que nós como Igreja, possamos reconhecer e condenar com dor e vergonha as atrocidades cometidas por clérigos e pessoas consagradas (…). A consciência do pecado ajuda-nos a reconhecer os erros e permite-nos abrir e comprometer-nos mais com o presente num caminho de renovação continuada”. É esclarecedor que o papa Francisco coloque o acento na solidariedade com as vítimas. É realmente a perspetiva do Evangelho, a defesa dos mais frágeis e pequeninos. Mostra, de facto, uma grande sensibilidade com o “sofrimento vivido por muitos menores por causa de abusos sexuais (…). Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência em primeiro lugar nas vítimas mas também nas suas famílias e na inteira comunidade”.

Mas não podemos fixar-nos apenas nos escândalos cometidos. Não representam a normalidade nem das famílias nem dos cidadãos nem da Igreja. Ao longo da Carta do Papa ressoa também o apelo à conversão. A consciência do pecado convida-nos à humildade e ao empenho por construir uma cultura de solidariedade e de fidelidade ao Evangelho. Assim a consciência da crise deverá ser um arranque para a regeneração.

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