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Mal na fotografia

Cheguei de viagem. Olho para as selfies que tirei. Não fiquei bem. Não me reconheço naquelas imagens. Reclamo do meu aparelho multiuso. Sou eu mesmo na fotografia? Dentro de mim recuso-me a sê-lo. Vejo-me velho, menos cabelos, gordo e com olheiras. Reclamo do meu próprio corpo e digo para a minha imagem na fotografia: tu não és eu.

Os religiosos dizem que somos a imagem de Deus. Discordo. Deus é o ser. Nós somos “existentes”. Há uma filosófica diferença entre Ser e Existir. O Ser refere-se ao estado de permanência do passado no presente. O Ser refere-se ao esquecimento. Deus é esquecimento. O perdão é esquecimento. Deus é perdão, nisso eu acredito.

Para ser eterno, Deus permanece em si mesmo e seu Ser passa para além do tempo a esquecer-se do passado, sendo pura presença. Ser é esquecer. Nós, porém, não somos. Nós existimos. A existência envolve mudanças. A existência envolve a memória. E por causa da memória nunca conseguimos esquecer o que fomos. A memória nos remete ao que já fomos e a nossa existência passada nunca será como a nossa existência presente, por isso ficamos impressionados com as nossas fotos e pensamos: tu não és eu.

Porque existimos lembramo-nos que já fomos muitos num só corpo. Foi um Demónio velho quem assim se apresentou a Jesus: “meu nome é Legião porque somos muitos”. Ser muitos num só corpo. Esta é a imagem do existente. Ser um só ser. Esta é a imagem de Deus. O ser singular é teológico, as existências plurais são psicológicas. Impossível mesmo é fotografar o ser.

Durval Baranowske

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