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Que bom foi, ter tido um pai assim!

Hoje lembrei-me de meu pai, coisa que faço todos os dias , pois devemos recordar quem nos gerou e nos ajudou a crescer em toda a nossa vida.

Meu pai era um jovem elegante e bem parecido, que veio muito cedo de Vila Moreira para Torres Novas, para casa da sua tia Emília e do seu tio Joaquim da Silva Patrício, por morte prematura de sua mãe, minha avó Lucinda, que não cheguei a conhecer.

Os tios não só o acolheram a ele, como aos irmãos Maria do Rosário e Manuel Joaquim. Da Maria do Rosário, grande amiga da minha mãe Carminda, só sei que casou e foi viver para Angola, tendo alguns filhos, em especial a minha prima Beatriz, que vive hoje no Funchal e a quem nos ligam muitos laços de amizade. Os restantes filhos pouco os vi, só sei que regressaram a Portugal e que viverão algures para o norte do país.

O meu pai José Pinheiro empregou-se automaticamente nas lojas do tio Joaquim e dele recordo o seu apego ao trabalho, a sua honradez e o seu humor, muito refinado. Não tinha estudos pois, ao que consta, na terceira classe zangou-se com a professora e atirou-lhe o tinteiro da secretária para cima.

Depois, fugiu e teve que aprender a ler e a fazer contas por si mesmo, e olhem que o sabia fazer muito bem. Conviveu assim até casar, com os filhos e filhas do tio, e com algumas amigas que a elas se juntavam e que certamente lhe arrastavam a asa. Elas eram bonitas que eu me lembro bem, da Maria Emília, da Otília e da Maria Luisa e da Aurélia, estas duas últimas, esposas dos filhos Joaquim e do Vitor.

Mas ele era sobrinho, órfão de mãe e não deixava de ser um criado dos tios, nunca olhando a esforços para agradecer o facto de ter sido acolhido em pequeno, nunca pensando sequer em receber o ordenado. Foram as primas que me contaram um episódio engraçado e que reflecte bem o maroto que o meu pai era. Segundo elas, num princípio de noite, as belezas estavam fechadas num quarto enchendo-se de perfumes , batons e pó de arroz, aperaltando-se para o baile da noite, quando o bom do Zé Pinheiro lhes suplicava que o deixassem ver as beldades.

De recusa a recusa, o bom do Zé, viu que o buraco da fechadura estava disponível, foi às anilinas negras das tintas do calçado, arranjou um pacotinho em papel em forma de palhinha, encheu o pacote com a anilina em pó preto e através da fechadura soprou, tendo provocado um desastre que sujou as donzelas e as encheu de raiva. Uma delas, para se vingar, jurou que se o meu pai morresse primeiro, iria ao seu funeral sempre a sorrir. E foi assim que aconteceu, ela a sorrir e eu a recordar o gozo que o meu querido pai teve nessa noite de vingança gloriosa.

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