Esta Europa

Falar de pluralismo religioso, de ecumenismo ou de laicidade, é falar desta nossa Europa e da sua cultura, da sua civilização e, naturalmente, do Cristianismo que a enformou.

Neste sentido cito as palavras de Eduardo Lourenço num longo artigo no jornal “Público”: “O atual panorama do pluralismo religioso ou do potencial ecuménico, só foi e é possível pelo facto de a cultura europeia se ter tornado ao longo de um processo milenário, uma cul- tura tendencialmente laica.”

As numerosas seitas que proliferam por essa Europa fora, parecem o ressuscitar do comportamento dos últimos três séculos do Império Romano. Nessa altura, com espanto e medo de muitos cidadãos romanos, surgiu uma nova religião que triunfou mercê de Constantino e do caráter tendencialmente universal dessa nova reli- gião ilustrado nas afirmações de S. Paulo. Também tinham surgido numerosas seitas cristãs e numerosos evangelhos que, graças à política constantiniana e ao poder persuasor de alguns célebres padres da Igreja, se unificaram com o estabelecimento da sua cabeça na velha Roma do Império Romano.

Quando este poder se tornou fraco e as dissensões do Renascimento abalaram o monolitismo da Igreja de Roma, começaram a surgir numerosas seitas ba- seadas nos mesmos livros sagrados. Isto só foi possível graças à natureza do Cristianismo. Este não é certamente uma religião no sentido clássico do termo. E atrevo-me a citar de novo Eduardo Lourenço: “O nome de “Pai”, dado a Deus, não é uma mera antropologização destinada a nomear o que não tem nem pode ter nome… mas a pura metáfora do sentimento de pura gratuidade que é a essência do laço que não nos ata a Deus – e muito menos Deus a nós – mas nos desata de todo o império da necessidade. Deus não é a nossa “propriedade”, nem nós a de Deus”.

O dever de amar a Deus, como todo o amor não se impõe. É exatamente o Amor que Cristo insistentemente pregou, o de Deus e do próximo que livremente nos é oferecido. Graças a ele, o pluralismo religioso foi possível nesta Europa, como foi possível o ecumenismo e a cultura europeia, tendencialmente laica. É que o amor não se impõe. Ou se tem ou não se tem. Será que a Europa cristã tem consciência disto?

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